quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
academia de vampiros - beijo das sombras (capitulo 8)
OITO
ARDENDO DE RAIVA, EU LUTEI melhor e mais duramente naquele dia do que jamais tinha
lutado em qualquer uma de minhas aulas com os aprendizes. Tanto que eu finalmente ganhei
minha primeira luta corpo-a-corpo, aniquilando Shane Reyes. Nós sempre nos demos bem, e
ele levou isso de boa, aplaudindo meu desempenho, assim como fizeram alguns outros.
“A revanche está começando,” observou Mason depois da aula.
“É o que parece.”
Ele gentilmente tocou meu braço. “Como está Lissa?”
Não me surpreendeu o fato de ele saber. Fofoca se espalhava tão rápido por aqui algumas
vezes, parecia que todo mundo tinha uma ligação mental.
“Okay. Se recuperando.” Eu não comentei como eu sabia disso. Nossa ligação mental era um
segredo do corpo estudantil. “Mase, você diz que sabe sobre Mia. Você acha que ela pode ter
feito aquilo?”
“Whoa, hey, eu não sou um expert nela nem nada. Mas, honestamente? Não. Mia não faria
nem dissecações nas aulas de biologia. Eu não consigo imaginá-la pegando uma raposa, menos
ainda, hum, matando-a.”
“Nenhum amigo que poderia fazer isso por ela?”
Ele balançou sua cabeça. “Na verdade não. Eles não são exatamente do tipo que sujam suas
mãos, tampouco. Mas quem pode saber?”
Lissa continuava abatida quando a encontrei mais tarde para o almoço, seu humor ficou pior
quando Natalie e sua turma não conseguiam parar de falar sobre a raposa. Aparentemente
Natalie superou seu nojo o suficiente para curtir a atenção que o espetáculo trouxe para ela.
Talvez ela não estivesse tão contente com seu status de impopular como eu sempre acreditei.
“E eu estava bem lá,” ela explicou, agitando as mãos para enfatizar. “Bem no meio da cama.
Tinha sangue em toda parte.”
Lissa parecia tão verde quanto o suéter que vestia, e eu a empurrei para longe antes mesmo
de terminar a minha comida e imediatamente lancei uma série de obscenidades quanto às
habilidades sociais de Natalie.
“Ela é legal,” Lissa disse automaticamente. “Você estava me dizendo outro dia o quanto
gostava dela.”
“Eu gosto dela, só que ela é incompetente quanto a certas coisas.”
Nós paramos do lado de fora da nossa classe de comportamento animal, e eu notei pessoas
nos dando olhares curiosos e cochichando enquanto passavam. Eu suspirei.
“Como você está com tudo isso?”
Um meio sorriso apareceu em sua face. “Você já não pode sentir isso?”
“Yeah, mas eu quero ouvir de você.”
“Eu não sei. Eu vou ficar bem. Eu queria que todos parassem de ficar me encarando como se
eu fosse uma esquisita.”
Minha raiva explodiu novamente. A raposa foi ruim. Pessoas chateando ela tornou tudo pior,
mas pelo menos eu podia fazer algo quanto a eles. “Quem está te incomodando?”
“Rose, você não pode bater em todo mundo com quem a gente tiver problemas.”
”Mia?” eu adivinhei.
“E outros,” ela disse evasivamente. “Olha, não importa. O que eu quero saber é como isso
pode ter... isto é, eu não consigo parar de pensar sobre aquela vez—“
“Não,” eu avisei.
“Por quê você continua fingindo que não aconteceu? Você de todas as pessoas. Você tira sarro
de Natalie por ficar tagarelando, mas não é como se você tivesse um bom controle sobre si
mesma. Você normalmente fala sobre qualquer coisa.”
“Mas não sobre aquilo. Nós temos que esquecer isso. Já faz muito tempo. Nós nem ao menos
sabemos realmente o que aconteceu.”
Ela me encarou com aqueles grandes olhos verdes, calculando seu próximo argumento.
“Hey, Rose.”
Nossa conversa parou assim que Jesse veio até nós. Eu dei meu melhor sorriso.
“Hey.”
Ele acenou cordialmente para Lissa. “Então, hey, eu vou estar no seu dormitório hoje à noite
para um grupo de estudos. Você acha... talvez...”
Momentaneamente esquecendo de Lissa, eu foquei minha atenção inteiramente em Jesse.
Repentinamente, eu precisava muito fazer algo selvagem e errado. Muito coisa tinha
acontecido hoje. “Claro.”
Ele me disse quando estaria lá, e eu lhe disse que o encontraria em uma das áreas comuns,
com “maiores informações”.
“Eu não quero exatamente ‘conversar’ com ele. Nós vamos escapulir.”
Ela resmungou. “Eu não te entendo às vezes.”
“Isso porque você é a cuidadosa, e eu sou a negligente.”
Assim que Comportamento Animal começou, eu analisei a possibilidade de Mia ser a
responsável. Pelo olhar arrogante em seu rosto de anja-psicopata, ela certamente parecia ter
adorado a sensação causada pela raposa sangrenta. Mas isso não significava que ela era
culpada, e depois de observá-la durante as últimas duas semanas, eu sabia que ela iria gostar
de qualquer coisa que chateasse a Lissa e a mim. Ela não precisava ser a pessoa que havia feito
isso.”
“Lobos, como muitas outras espécies, diferenciam seus grupos em machos alfas e fêmeas alfas
aos quais os outros se reportam. Alfas são quase sempre os mais fortes fisicamente, apesar de
que muitas vezes, confrontos acabam sendo mais uma questão de força de vontade e
personalidade. Quando um alfa é desafiado e substituído, esse lobo possivelmente será banido
do grupo ou até mesmo atacado.”
Eu parei de sonhar acordada e foquei na Sra. Meissner.
“A maioria dos desafios tende a ocorrer durante a temporada de acasalamento,” ela
continuou. Isto naturalmente trouxe risinhos dos alunos. “Na maior parte dos grupos, os casais
alfas são os únicos que se acasalam. Se o macho alfa é um lobo ancião, um competidor mais
novo pode pensar que tem alguma chance contra ele. Se isso realmente é verdade depende de
cada caso. Os mais jovens geralmente não percebem o quanto são seriamente ameaçados pelo
mais experiente.”
Deixando de lado o negócio de velho-e-jovem-lobo, eu pensei que o resto era bastante
relevante. Certamente na estrutura social da Academia, eu decidi amargamente, parecia existir
um monte de alfas e competições.
Mia levantou sua mão. “E quanto às raposas? Elas têm alfas também?
A turma toda segurou a respiração, seguidamente de alguns risinhos nervosos. Ninguém
acreditava que Mia tinha tocado nesse ponto.
Sra. Meissner ficou vermelha com o que eu suspeitei que fosse raiva. “Nós estamos discutindo
lobos hoje, Srtª Rinaldi.”
Mia não pareceu se importar com a bronca sutil, e quando a classe se formou em pares para
trabalhar em uma tarefa, ela passou a maior parte do tempo olhando para nós e rindo. Através
da ligação, eu pude sentir Lissa ficando mais e mais chateada, enquanto as imagens da raposa
continuavam a passar por sua mente.
“Não se preocupe,” eu disse a ela. “Eu arranjei um jeito—“
“Hey, Lissa,” alguém interrompeu.
Nós olhamos para cima assim que Ralf Sarcozy parou em frente às nossas mesas. Ele estava
com aquele estúpido sorriso de sempre, e eu tive a sensação de que ele tinha vindo até nós
por causa de uma provocação de seus amigos.
“Então, admita,” ele disse. “Você matou a raposa. Você estava tentando convencer Kirova de
que está louca, daí você pode sair daqui de novo.”
“Vai se ferrar,” eu falei em uma voz baixa.
“Você está oferecendo?”
“Pelo o que eu ouvi, não tem muito o que ferrar,” eu retruquei.
“Wow,” ele zombou. “Você mudou. Pelo que eu me lembre, você não era tão exigente para
escolher com quem ficava nua.”
“E pelo que eu me lembre, as únicas pessoas que você viu nuas estavam na Internet.”
Ele levantou sua cabeça com ar de superior, de um jeito exageradamente dramático. “Hey, eu
acabei de perceber: foi você, não foi?” Ele olhou para Lissa, ficando de costas para mim. “Ela
fez você matar a raposa, não foi? Algum tipo estranho de vodu lésbic—ahhh!”
Ralf explodiu em chamas.
Eu pulei e empurrei Lissa para fora do caminho – não algo fácil de fazer, já que estávamos
sentadas em nossas carteiras. Nós duas terminamos no chão enquanto os gritos – de Ralf em
particular – encheram nossa sala de aula e Sra. Meissner correu para alcançar o extintor de
incêndio.
E aí, do nada, as chamas desapareceram. Ralf ainda estava gritando e se batendo, mas ele não
tinha nenhuma marca de queimado. O único indicativo do que acabara de acontecer era o
cheiro de fumaça no ar.
Por vários segundos, a sala inteira congelou. Daí, lentamente, todos juntaram as peças do
quebra-cabeça. As especializações de magia dos Moroi era conhecidas por todos, e depois de
procurar na sala, eu identifiquei três usuários de fogo: Ralf, seu amigo Jacob, e– Christian
Ozera.
Sendo que nem Jacob nem Ralf botariam fogo em Ralf, isso meio que deixou óbvio quem era o
culpado. O fato de que Christian estava rindo histericamente meio que entregou também.
Sra. Meissner mudou do vermelho para o roxo. “Sr Ozera!” ela gritou. “Como você se atreve –
você faz alguma idéia – vá para a sala da Diretora Kirova agora mesmo!”
Christian, completamente inabalável, se levantou e jogou sua mochila sobre um ombro.
Aquele sorriso continuou em seu rosto. “É claro, Sra. Meissner.”
Ele desviou do seu caminho para passar do lado de Ralf, que rapidamente recuou enquanto ele
passava. O resto da classe encarava, de boca aberta.
Depois disso, Sra. Meissner tentou fazer com que a classe voltasse ao normal, mas era uma
causa perdida. Ninguém podia parar de falar sobre o que tinha acontecido. Era chocante em
diferentes níveis. Primeiro, nunca ninguém tinha visto aquele tipo de feitiço: um montante de
fogo que não queimava nada de verdade. Segundo, Christian tinha usado isso ofensivamente.
Ele havia atacado outra pessoa. Moroi nunca faziam isso. Eles acreditavam que a magia era
destinada à proteção da terra, para ajudar pessoas a terem vidas melhores. Nunca, jamais
tinha sido usada como arma. Instrutores de magia nunca ensinavam esses tipos de feitiços; eu
nem acreditava que eles sabiam algum. Finalmente, o mais louco de tudo, Christian tinha feito
isso. Christian, que nunca tinha sido notado e com quem ninguém se importava. Bem, agora
eles o tinham notado.
Parecia que alguém ainda conhecia feitiços ofensivos, apesar de tudo, e por mais que eu tenha
gostado do olhar de terror na cara de Ralf, subitamente me ocorreu que Christian deveria ser
realmente e verdadeiramente um psicopata.
“Liss,” eu disse enquanto saíamos da sala, “por favor me diga que você não está se
encontrando com ele de novo.”
A culpa que se agitou por meio de nossa ligação mental me disse mais do que qualquer
explicação.
“Liss!” eu agarrei seu braço.
“Não tanto assim,” ela disse apreensiva. “Ele é realmente okay—“
“Okay? Okay?” As pessoas no hall nos encaravam. Eu percebi que estava praticamente
gritando. “Ele está fora de si. Ele pôs fogo no Ralf. Eu pensei que tínhamos decidido que você
não o veria novamente.”
“Você decidiu, Rose. Não eu.” Havia um tom em sua voz que eu não ouvia fazia um tempo.
“O que está acontecendo aqui? Vocês estão... você sabe?...”
“Não!” ela insistiu. “Eu já te disse. Deus.” Ela me lançou um olhar de desgosto. “Nem todo
mundo pensa – e age – que nem você.”
Eu me encolhi com essas palavras. Nessa hora percebemos que Mia estava passando por ali.
Ela não tinha escutado a conversa, mas tinha entendido o tom. Um sorriso sarcástico apareceu
em seu rosto. “Problemas no paraíso?”
“Vai procurar seu apaziguador e cala a droga da boca,” eu disse a ela, não esperando para
ouvir a resposta. Ela ficou boquiaberta, e depois sua boca se estreitou em uma carranca.
Lissa e eu andamos em silêncio, e de repente Lissa começou a ter um ataque de riso. Desse
jeito, nossa briga se dissipou.
“Rose...” Seu tom estava mais leve agora.
“Lissa, ele é perigoso. Eu não gosto dele. Por favor, tome cuidado.”
Ela tocou meu braço. “Eu vou. Eu sou a cuidadosa, lembra? Você é a negligente.”
Eu esperava que isso ainda fosse verdade.
Porém mais tarde, depois da escola, eu tive minhas dúvidas. Eu estava no meu quarto fazendo
dever de casa quando eu senti uma fisgada do que só poderia ser chamado de dissimulação
vindo de Lissa. Perdendo o raciocínio do meu trabalho, eu encarei o vazio, tentando entender
mais detalhadamente o que se passava com ela. Se já tivesse existido uma hora certa de entrar
na mente dela, era agora, mas eu não sabia como controlar isso.
Me concentrando, tentei pensar no que normalmente faz nossa conexão ocorrer. Geralmente
ela estava tendo uma forte emoção, uma emoção tão poderosa que tentava invadir minha
mente. Eu tive que trabalhar duro para lutar contra isso; eu sempre tentei manter uma parede
mental levantada.
Focando nela agora, eu tentei remover essa parede. Eu controlei minha respiração e clareei
minha mente. Meus pensamentos não importavam, somente os dela. Eu precisava me abrir
para ela e deixar que nos conectássemos.
Eu nunca tinha feito algo como isso antes; eu não tinha paciência para meditação. Minha
necessidade era tão grande, no entanto, que eu me forcei em um intenso e focado
relaxamento. Eu precisava saber o que acontecia com ela, e depois de mais alguns momentos,
o esforço valeu a pena.
Eu estava dentro.
academia de vampiros - beijo das sombras (capitulo 7)
SETE
ALGUMAS SEMANAS SE PASSARAM DEPOIS disso, e eu logo esqueci sobre a coisa da Anna
assim que a vida na Academia me envolveu. O choque da nossa volta tinha passado um pouco,
e nós começamos a cair numa rotina semi-confortável. Meus dias se resumiam em igreja,
almoço com Lissa, e qualquer tipo de vida social que eu poderia conseguir além disso. Negado
qualquer tempo livre real, eu não tive dificuldade para ficar de fora do centro das atenções,
embora tenha dado um jeito de roubar um pouco de atenção aqui e ali, apesar de meu nobre
discurso a ela sobre ‘navegar com a correnteza’. Eu não podia evitar. Eu gostava de flertar, eu
gostava de grupos, e eu gostava de fazer comentários espertinhos na aula.
O novo e incógnito papel dela chamava atenção simplesmente porque era tão diferente de
antes de fugirmos, quando ela tinha sido tão ativa com a realeza. A maioria das pessoas logo
deixou isso passar, aceitando que a princesa Dragomir estava saindo do radar social e contente
em andar com Natalie e seu grupo. As divagações de Natalie ainda me faziam querer bater a
minha cabeça na parede às vezes, mas ela era legal - mais legal do que quase todos da realeza
– e eu gostava de estar perto dela na maior parte do tempo.
E, exatamente como Kirova tinha avisado, eu estava realmente treinando e trabalhando o
tempo todo. Mas quanto mais o tempo passava, mais meu corpo parava de me odiar. Meus
músculos ficavam mais resistentes, e meu vigor aumentava. Eu ainda apanhava durante o
treino, mas não tanto quanto eu costumava, o que já era alguma coisa. O maior problema
agora parecia ser a minha pele. Ficar do lado de fora no frio por tanto tempo estava rachando
o meu rosto, e só o estoque de cremes faciais de Lissa me impediram de envelhecer antes da
hora. Ela não podia fazer muito pelas bolhas nas minhas mãos e pés.
Uma rotina também se desenvolveu entre Dimitri e eu. Mason estava certo sobre ele ser antisocial.
Dimitri não saia muito com os outros guardiões, apesar de estar claro que todos o
respeitavam. E quanto mais eu trabalhava com ele, mais eu o respeitava também, apesar de
não entender realmente os seus métodos de treinamento. Eles não pareciam muito
agressivos. Nós sempre começávamos com o alongamento no ginásio, e ultimamente ele me
mandava para fora para correr, encarando o cada vez mais frio outono de Montana.
Três semanas depois do meu retorno à Academia, eu fui um dia até o ginásio antes da escola e
achei ele espichado num colchonete lendo um livro de Louis L’Amour. Alguém tinha trazido um
CD player portátil, e enquanto isso, de primeira, me animou de primeira, a música que vinha
dele não o fez: “When Doves Cry” do Prince. Era embaraçoso saber o título da música, mas um
dos nossos colegas de quarto era obcecado pelos anos 80.
“Whoa, Dimitri,” eu disse, jogando minha mochila no chão. “Eu entendo que esse é um hit do
momento no Leste Europeu atualmente, mas você acha que podemos escutar alguma coisa
que não tenha sido gravada antes de eu nascer?”
Apenas os olhos dele passaram por mim, o resto da sua postura continuou a mesma. “O que
isso importa para você? Eu que vou continuar ouvindo isso. Você vai estar lá fora correndo.”
Eu fiz uma careta enquanto coloquei meu pé em cima de uma das barras e estiquei os tendões
da perna. Considerando todas as coisas, Dimitri tinha uma boa tolerância para meu sarcasmo.
Desde que eu não folgasse no meu treinamento, ele não ligava para meus comentários
constantes.
“Hey”, eu perguntei, passando para a próxima sessão de alongamentos, “qual é a da corrida,
afinal de contas? Quero dizer, eu entendo a importância da força e tudo mais, mas eu não
deveria estar passando para algo com um pouco mais de luta? Eles ainda estão me matando
na prática em grupo.”
“Talvez você devesse bater mais forte,” Ele replicou secamente.
“Eu falo sério.”
“Difícil dizer a diferença.” Ele abaixou o livro, mas não moveu seu corpo. “Meu trabalho é te
preparar para defender a princesa e lutar com criaturas das trevas, certo?”
“Sim.”
“Então me diga isto: supondo que você consiga sequestrá-la de novo e levá-la para um
shopping. Enquanto vocês estão lá, um Strigoi vai até vocês. O que você vai fazer?”
“Depende da loja em que estivermos.”
Ele me encarou.
“Certo. Eu o apunhalaria com uma estaca de prata.”
Dimitri sentou-se agora, cruzando suas pernas em um movimento fluido. Eu ainda não
entendia como alguém tão alto podia ser tão gracioso. “Oh?” Ele levantou suas sobrancelhas
escuras. “Você tem uma estaca de prata? Você pelo menos sabe usar uma?”
Eu arrastei meus olhos para longe do corpo dele e olhei de cara feia. Feitas com magia
elementar, estacas de prata eram as armas mais mortíferas dos guardiões. Apunhalar um
Strigoi no coração significava morte imediata. As lâminas eram igualmente mortais aos Morois,
então elas não eram dadas facilmente para os aprendizes. Minha classe estava apenas
começando a aprender como usá-las. Eu treinei com uma arma antes, mas ninguém iria me
deixar chegar perto de uma estaca ainda. Felizmente, há outros dois jeitos de matar um
Strigoi.
“Okay. Eu iria cortar a cabeça dele fora.”
“Ignorando o fato de que você não tem uma arma para fazer isso, como você compensaria o
fato de que ele poderia ser 30 centímetros mais alto do que você?”
Eu endireitei meu corpo, parando de tocar meus dedos dos pés, irritada. “Certo, então eu iria
botar fogo nele.”
“De novo, com o quê?”
“Certo, eu desisto. Você já tem a resposta. Você está apenas brincando comigo. Eu estou num
shopping e eu vejo um Strigoi, o que eu faço?”
Ele olhou para mim e não piscou. “Você corre.”
Eu reprimi o desejo de jogar alguma coisa nele. Quando eu terminei meu alongamento, ele
falou que iria correr comigo. Essa era nova. Talvez correr me daria alguma visão sobre sua
super reputação.
Nós saímos na noite fria de Outubro. Estar de volta a uma programação vampira ainda me
fazia sentir estranha. Com a escola para começar em cerca de uma hora, eu esperava o sol
nascer, e não se pôr. Mas ele estava afundando no
horizonte a Oeste, iluminando as montanhas brancas de neve com um brilho laranja. Isso não
chegou realmente a aquecer o lugar, e logo senti o ar gelado perfurar meus pulmões assim que
minha necessidade de oxigênio aumentou. Nós não falamos. Ele desacelerou seu ritmo para
combinar com o meu, assim nós permanecemos juntos.
Alguma coisa sobre isso me incomodou; de repente eu queria muito sua aprovação. Então eu
fui no meu próprio ritmo, trabalhando meus pulmões e músculos mais duramente. Doze voltas
ao redor da pista resultaram em 5 quilômetros; ainda tínhamos nove para percorrer.
Quando chegamos na antepenúltima volta, alguns outros aprendizes passaram por nós, se
preparando para ir para a prática de grupo em que eu logo estaria também. Ao me ver, Mason
torceu por mim. “Boa forma, Rose!”
Eu sorri e acenei de volta.
“Você está ficando mais lenta” Dimitri falou rispidamente, tirando meu olhar dos rapazes. A
dureza em sua voz me surpreendeu. “É por isso que seus tempos de corrida não estão ficando
nada mais rápidos? Você se distrai facilmente?”
Envergonhada, eu aumentei minha velocidade mais uma vez, apesar do fato de meu corpo ter
começado a gritar obscenidades para mim. Nós terminamos a décima segunda volta, e quando
ele checou, viu que fizemos dois minutos a menos que o meu melhor tempo.
“Nada mal, huh?” Eu vociferei quando voltamos para dentro para fazer alongamentos de
relaxamento. "Parece que eu poderia ir tão longe quanto a divisa do país antes que os Strigoi
me peguem no shopping. Só não tenho certeza de como Lissa faria.”
“Se ela estivesse com você, ela estaria bem.”
Olhei-o surpresa. Era o primeiro elogio de verdade que ele me deu desde que começamos o
treinamento. Seus olhos castanhos me observavam, tanto com diversão quanto com
aprovação.
E foi aí que aconteceu.
Eu senti como se alguém tivesse me dado um tiro. Afiado e aguçado, o terror explodiu em meu
corpo e na minha cabeça. A minha visão ficou turva, e por um momento, eu não estava parada
lá. Eu estava descendo e correndo por um lance de escadas, assustada e desesperada,
precisando sair dali, precisando encontrar… a mim.
A minha visão clareou, deixando-me de volta na pista e fora da cabeça de Lissa. Sem uma
palavra à Dimitri, retirei-me dali, correndo o mais rápido que pude em direção ao dormitório
Moroi. Não importava que eu tinha acabado de botar minhas pernas para correr numa minimaratona.
Elas correram sem esforço e rapidamente, como se elas fossem novas e brilhantes.
Distantemente, eu tinha consciência de que Dimitri me alcançava e perguntava o que estava
errado, mas eu não pude respondê-lo. Eu tinha uma tarefa e somente uma: chegar ao
dormitório.
Sua forma gigantesca e coberta de hera estava apenas chegando em minha visão quando Lissa
nos encontrou, seu rosto coberto de lágrimas. Eu parei subitamente, meus pulmões a ponto
de explodir.
“O que está errado? O que aconteceu?” Eu exigi, chacoalhando seus braços, forçando-a a olhar
para os meus olhos.
Mas ela não podia responder. Ela apenas jogou seus braços ao meu redor, soluçando no meu
peito. Eu segurei ela ali, alisando seu lustroso e sedoso cabelo enquanto dizia que tudo ficaria
bem – seja lá o que ‘tudo’ fosse. E sinceramente, eu não me importava com o que fosse
naquele momento. Ela estava ali e estava segura, e isso era só o que importava. Dimitri estava
perto de nós, alerta e pronto para qualquer ameaça, seu corpo posicionado para o ataque. Eu
me senti segura com ele ao nosso lado.
Uma meia hora depois, estávamos todos dentro do quarto de Lissa com outros três guardiões,
Sra. Kirova, e a inspetora do saguão. Esta era a primeira vez que eu via o quarto de Lissa.
Natalie tinha efetivamente conseguido obtê-la como colega de quarto, e os dois lados do
quarto davam um estudo sobre contrastes. O de Natalie era vivo, cheio de fotos na parede e
uma colcha de flores que não combinavam com um dormitório. Lissa tinha poucas posses
como eu, tornando sua metade pouco notável. Ela tinha uma imagem pendurada na parede,
tirada no último Dia das Bruxas, quando tínhamos nos vestido de fadas, completando a
fantasia com asas e maquiagem de glitter. Ver essa foto e lembrar de como as coisas
costumavam ser fez com que uma dor maciça se formasse em meu peito.
Com toda a agitação que havia ninguém notou que eu supostamente não deveria estar ali. Lá
fora no saguão, outras meninas Moroi se juntaram, tentando descobrir o que estava
acontecendo. Natalie passou por meio delas, querendo saber qual era o motivo da inquietação
em seu quarto. Quando ela descobriu, ela parou bruscamente.
Choque e nojo apareceram no rosto de quase todos assim que olhamos para a cama de Lissa.
Havia uma raposa em seu travesseiro. O seu pelo era laranja-avermelhado, com um quê de
branco. Ela parecia tão suave e fofa que poderia ser um animal de estimação, um gato talvez,
algo que você colocaria em seus braços e faria carinho.
Desconsiderando o fato de que sua garganta tinha sido cortada.
O interior da garganta era rosa e parecido com gelatina. O sangue tinha manchado o pêlo
macio e escorregado até a colcha amarela, formando uma piscina escura que se espalhava por
todo o tecido. Os olhos da raposa olhavam fixamente para cima, envidraçados, com uma
espécie de choque neles, como se a raposa não pudesse acreditar no que estava acontecendo.
Náusea se acumulou em meu estômago, mas eu me forcei a continuar olhando. Eu não podia
me dar ao luxo de ficar nauseada. Eu estaria matando Strigoi algum dia. Se eu não podia lidar
com uma raposa, eu nunca iria sobreviver a mortes maiores.
O que tinha acontecido com a raposa era perverso e doentio, obviamente feito por alguém tão
perturbado que não há palavras para descrevê-lo. Lissa olhou fixamente para ela, sua cara
pálida como um cadáver, e andou alguns passos em sua direção, mãos involuntariamente
tentando alcançá-la. Esse ato nojento a atingiu duramente, eu sabia, considerando seu amor
por animais. Ela os amava, eles a amavam. Enquanto estavamos por nossa conta, ela muitas
vezes implorou por um animal de estimação, mas eu sempre recusei, lembrando a ela de que
não poderíamos cuidar de um quando poderíamos ter de fugir a qualquer momento. Além do
mais, eles me odiavam. Então ela se contentou em ajudar e cuidar de animais perdidos que
encontrava, e fazer amizade com os bichos dos outros, como o gato Oscar.
Entretanto, ela não podia cuidar dessa raposa. Não tinha como trazê-la de volta, mas eu vi em
seu rosto que ela queria ajudar, assim como queria ajudar em tudo. Eu peguei a sua mão e a
afastei, recordando de repente uma conversa de dois anos atrás.
“O que é isso? É uma gralha?”
“Muito grande. É um corvo.”
“Está morto?”
“Yeah, definitivamente morto. Não toque nele.”
Ela não tinha me dado ouvidos na época. Eu esperava que o fizesse agora.
“Ela ainda estava viva quando eu voltei.” Lissa sussurrou para mim, sacudindo meu braço. “Por
muito pouco. Oh deus, ela estava se contorcendo. Ela deve ter sofrido tanto.”
Eu senti bile subir na minha garganta. Sob nenhuma circunstância eu iria vomitar agora. "Você
–?"
“Não...eu queria...eu comecei...”
“Então esqueça sobre isso,” eu disse rispidamente. “É estúpido. Uma brincadeira estúpida de
alguém. Eles vão limpar tudo. Até mesmo lhe dar um quarto novo, se você quiser.”
Ela se virou para mim, seus olhos quase selvagens. “Rose... você lembra... aquela vez...”
“Pare com isso,” eu disse. “Esqueça sobre isso. Isto não é a mesma coisa.”
“E se alguém viu? E se alguém sabe?...”
Eu estreitei meu aperto no seu braço, cravando minhas unhas para que ela prestasse atenção.
Ela se encolheu. “Não. Não é o mesmo. Não tem nada a ver com aquilo. Você me ouviu?” Eu
podia sentir tanto os olhos de Natalie quanto de Dimitri em nós. “ Vai ficar tudo bem. Tudo vai
ficar bem.”
Não parecendo que acreditava em mim, Lissa afirmou com a cabeça.
“Limpe isso,” Kirova disse severamente para a inspetora. “E descubra se alguém viu algo.”
Alguém finalmente se tocou que eu estava ali e ordenou que Dimitri me levasse embora, não
importando o quanto eu implorasse para me deixarem ficar com Lissa. Ele me acompanhou
até o dormitório dos aprendizes. Ele não falou até estarmos quase lá. “Você sabe de alguma
coisa. Alguma coisa sobre o que aconteceu. Foi isso o que você quis dizer quando falou à
Diretora Kirova que Lissa estava em perigo?”
“Eu não sei de nada. É só alguma brincadeira doentia.”
“Você tem idéia de quem faria isso? Ou por quê?”
Eu ponderei sobre isso. Antes de fugirmos, isso poderia ter sido feito por diversas pessoas. É
assim que acontece quando se é popular. Pessoas te amam, pessoas te odeiam. Mas agora?
Lissa tinha deixado de ser popular em certa extensão. A única pessoa que realmente e
verdadeiramente a desprezava era Mia, mas Mia parecia lutar as suas batalhas com palavras,
não ações. E mesmo que ela tivesse decidido fazer algo mais agressivo, por que fazer isso? Ela
não parecia ser deste tipo. Existiam milhões de outros jeitos de se vingar de uma pessoa.
“Não,” eu falei a ele. “Nenhuma idéia”.
“Rose, se você sabe de algo, me conte. Nós estamos do mesmo lado. Nós dois queremos
protegê-la. Isto é sério.
Eu me virei, descontando minha raiva da raposa em cima dele. “Yeah, isso é sério. É tudo sério.
E você fica me fazendo dar voltas todos os dias enquanto eu deveria estar aprendendo a lutar
e defendê-la! Se você quer ajudá-la, me ensine alguma coisa!Me ensine a lutar. Eu já sei como
fugir.”
Eu não percebi até aquele momento o quanto eu queria aprender, o quanto eu queria me
provar para ele, para Lissa, e para todo mundo. O incidente com a raposa me fez sentir
impotente, e eu não gostei daquilo. Eu queria fazer alguma coisa,qualquer coisa.
Dimitri observou minha explosão calmamente, sem mudar sua expressão. Quando eu terminei,
ele simplesmente me chamou adiante como se eu não tivesse dito nada. “Vamos lá. Você está
atrasada para o treino.”
academia de vampiro - beijo das sombras (capitulo 6)
SEIS
POR MAIS QUE O ENCONTRO de Lissa com Christian me incomodasse, acabou me dando uma
idéia no dia seguinte.
“Hey, Kirova – er, Sra. Kirova.” Eu parei na porta de sua sala, não me preocupando em marcar
um horário. Ela levantou seus olhos de alguns documentos, claramente irritada por me ver.
“Sim, Srtª Hathaway?”
“A minha detenção significa que eu não posso ir à Igreja?”
“Perdão?”
“Você disse que sempre quando eu não estiver em aula ou praticando, eu devo ficar no
dormitório. Mas e quanto a igreja aos domingos? Eu não acho que seja justo me deixar longe
das minhas necessidades...hum, religiosas.” Ou me privar de outra chance – não importando o
quão curta e chata – de estar com Lissa.
Ela empurrou seus óculos até o meio do nariz. “Eu não estava consciente de que você tinha
alguma necessidade religiosa.”
“Eu encontrei Jesus enquanto estava longe.”
“Sua mãe não é atéia?” ela perguntou com desconfiança.
“E meu pai provavelmente é muçulmano. Mas eu sigo o meu próprio caminho. Você não
deveria me afastar dele.”
Ela fez um som que meio que pareceu como uma zombaria. “Não, Srtª Hathaway, eu não
deveria. Muito bem. Você poderá estar presente na missa aos domingos.”
A vitória foi curta, no entanto, porque quando fui à missa alguns dias depois, vi que a igreja era
tão chata quanto eu lembrava. Eu consegui sentar ao lado de Lissa, pelo menos, o que me fez
sentir como se estivesse tendo algum lucro nisso tudo. Na maior parte do tempo eu apenas
observei as pessoas. Ir à igreja era opcional para os estudantes, mas com tantas famílias do
Leste Europeu, vários estudantes eram Cristãos Ortodoxos e freqüentavam a igreja ou porque
acreditavam ou porque seus pais lhes obrigavam.
Christian sentou no lado oposto do corredor, fingindo ser tão santo como tinha dito. Por mais
que eu não gostasse dele, sua falsa fé me fez sorrir. Dimitri sentou atrás, sua face contornada
de sombras e, como eu, não comungou. Por mais pensativo que aparentasse, eu me
perguntava se ele sequer havia escutado ao sermão. Eu escutava apenas algumas partes.
“Seguir o caminho de Deus não é sempre fácil,” o padre estava dizendo. “Até mesmo o Santo
Vladimir, santo patrono dessa escola, passou por momentos difíceis. Ele era tão espirituoso
que as pessoas sempre se reuniam ao seu redor, extasiadas por apenas ouvi-lo e por estar em
sua presença. Tão grande era seu espírito, os textos antigos dizem, que ele podia curar os
doentes. Ainda assim, apesar desses dons, muitos não o respeitavam. Estes zombavam dele,
afirmando que era desorientado e perturbado.”
O que foi uma boa forma bonita de dizer que Vladimir era maluco. Todo mundo sabia disso.
Ele era um dos poucos santos Moroi, por isso o padre gostava de falar muito sobre ele. Eu já
tinha escutado tudo sobre ele, por muitas vezes antes de fugirmos. Legal. Parecia que eu teria
uma infinidade de domingos para escutar a sua história de novo e de novo.
“...e assim foi com a Anna Shadow-Kissed*."
Eu levantei a minha cabeça. Eu não fazia idéia do que o padre estava falando, porque eu não
estava escutando por um tempo. Mas essas palavras arderam em mim. Shadow-Kissed. Já fazia
um tempo desde que eu as tinha ouvido, mas nunca as tinha esquecido. Eu aguardei,
esperando que ele continuasse, mas ele já havia passado para a próxima parte da missa. O
sermão tinha terminado.
A missa terminou, e quando Lissa se virou para sair, eu virei minha cabeça para ela. “Espere
por mim. Eu já volto.”
Eu forcei o meu caminho pela multidão, indo até a frente, onde o padre estava conversando
com algumas poucas pessoas. Eu esperei impacientemente até que ele terminasse. Natalie
estava lá, questionando-o sobre algum trabalho voluntário que ela pudesse fazer. Ugh.
Quando terminou, ela partiu, me cumprimentando enquanto passava.
O padre levantou suas sobrancelhas quando me viu. “Olá, Rose. É bom te ver novamente.”
“Yeah... você também,” eu disse. “Eu ouvi você falando sobre Anna. Sobre como ela era
‘shadow-kissed’. O que isso significa?”
Ele fez uma carranca. “Eu não tenho certeza absoluta.Ela viveu há muito tempo atrás. Era
comum se referir a pessoas por rótulos que refletiam algo de suas características pessoais.
Devem ter lhe dado esse nome para que soasse de um modo feroz.”
Eu tentei esconder meu desapontamento. “Ah. Então, quem ela era?”
Dessa vez sua carranca foi mais de desaprovação do que pensativa. “Eu mencionei isso por
diversas vezes.”
“Oh. Eu devo ter, um, perdido essa parte.”
Seu desapontamento aumentou, e ele se virou. “Espere só um momento.”
Ele desapareceu pela porta próxima ao altar, aquela que Lissa usou para ir até o sotão.
Considerei fugir, mas pensei que Deus poderia se vingar de mim por isso. Menos de um minuto
depois, o padre retornou com um livro. Ele o passou para mim. Santos Moroi.
“Você pode aprender sobre ela aqui. Da próxima vez em que eu te ver, gostaria de ouvir o que
você aprendeu.”
Fiz cara feia enquanto saia. Ótimo. Lição de casa passada pelo padre.
Na entrada da capela, encontrei Lissa conversando com Aaron. Ela sorria enquanto falava, e os
sentimentos emanandos dela eram felizes, apesar de certamente não serem de paixão.
“Você está brincando,” ela exclamou.
Ele sacudiu sua cabeça. “Nope.”
Me vendo chegar, ela se virou para mim. “Rose, você não vai acreditar nisso. Você conhece
Abby Badica? E Xander? O guardião deles quer se demitir. E casar com outra guardiã.”
Agora sim, isso era fofoca excitante. Um escândalo, na verdade. “Sério? Eles vão, tipo, fugir
juntos?”
Ela assentiu. “Eles estão comprando uma casa. Vão procurar emprego entre os humanos, eu
acho.”
Eu olhei para Aaron, que repentinamente tinha ficado tímido comigo ali. “Como Abby e Xander
estão lidando com isso?”
“Okay. Constrangidos. Eles acham que é estupidez.” Então, ele percebeu com quem estava
falando. “Oh. Eu não queria dizer—“
“Não importa.” Eu dei a ele um estreito sorriso. “Isso é estupidez.”
Wow. Eu estava perplexa. A parte rebelde em mim amava qualquer história onde as pessoas
“lutavam contra o sistema”. Só que, nesse caso, eles estavam lutando contra o meu sistema,
aquele em que eu fui treinada para acreditar durante toda a minha vida.
Dhampirs e Moroi tinham um acordo estranho. Dharmpis originalmente tinham nascido das
relações entre Moroi e humanos. Infelizmente, dhampirs não podiam reproduzir entre si – ou
com humanos. É uma dessas coisas estranhas sobre genética. Mulas eram do mesmo jeito, me
contaram, apesar de ser uma comparação que não gostei muito de escutar. Dhampirs e Moroi
puros podiam ter filhos juntos, e por meio de outra esquisitice da genética, seus filhos nasciam
como dhampirs padrão, com metade dos genes humanos, metade dos genes vampiros.
Com os Moroi sendo os únicos com quem os dhampirs poderiam reproduzir, nós tínhamos que
estar próximos e unidos a eles. Isto é, se tornou importante para nós que os Moroi
simplesmente sobrevivessem. Sem eles, nós estariamos acabados. E do jeito que os Strigoi
adoravam destruir um por um dos Moroi, sua sobrevivência se tornou uma preocupação
legítima para nós.
É assim que se desenvolveu o sistema guardião. Dhampirs não podiam usar magia, mas nós
dávamos como ótimos guerreiros. Nós herdamos os sentidos e reflexos aguçados de nossos
genes vampiros, e uma força e resistência mais aprimorada dos genes humanos. Também não
éramos limitados pela necessidade de sangue ou pelos problemas com a luz do sol. Claro, nós
não éramos tão poderosos quanto os Strigoi, mas nós treinávamos duro, e guardiões faziam
um trabalho bom pra caramba em manter os Moroi seguros. A maioria dos dhampirs sentiam
que valia a pena arriscar suas vidas para garantir que nossa espécie pudesse continuar
reproduzindo.
Considerando que os Moroi normalmente queriam ter e criar filhos Moroi, você não
encontrava muitos romances duradouros entre Moroi-dhampir. Principalmente, você não
encontrava muitas mulheres Moroi se amarrando com caras dhampir. Mas um monte de
jovens Moroi gostavam de sair por aí pegando mulheres dhampir, apesar de geralmente eles
acabarem casando com mulheres Moroi. Isso resultava em um monte de mães solteiras
dhampir, mas nós éramos fortes e podíamos lidar com isso.
No entanto, muitas mães dhampir escolhiam não se tornar guardiãs para poder criar seus
filhos. Essas mulheres, às vezes, possuíam empregos “comuns”, trabalhando com Moroi ou
humanos; algumas delas viviam juntas em comunidades. Essas comunidades tinham uma má
reputação. Eu não sei o quanto disso é verdade, mas os rumores contavam que homens Moroi
as visitavam a todo tempo em busca de sexo. E que algumas mulheres dhampir deixavam que
eles tomassem seu sangue enquanto isso. Meretrizes de sangue.
Além do mais, quase todos os guardiões eram homens, o que significa que existiam muito mais
Moroi do que guardiões. A maioria dos caras dhampir aceitavam que não poderiam ter filhos.
Eles sabiam que era de sua responsabilidade proteger os Moroi enquanto suas irmãs e primas
tinham filhos.
Algumas mulheres dhampir, como minha mãe, ainda sentiam que era seu dever se tornarem
guardiãs – mesmo que isso significasse não criar seus próprios filhos. Depois que eu nasci, ela
me entregou para ser criada por um Moroi. Moroi e dhampirs começam a freqüentar a escola
bem novos, e a Academia essencialmente me assumiu como meus pais quando eu tinha
quatro anos.
Em conseqüência do exemplo que ela me deu e minha vida na Academia, eu acreditava
piamente que o dever de um dhampir é proteger os Moroi. Era parte de nossa herança, e a
única forma de continuar existindo. Simples assim.
E isso era o que acabou tornando a atitude do guardião dos Badicas tão chocante. Ele tinha
abandonado seu Moroi e fugido com outra guardiã, o que significa que ela abandonou Moroi
dela. Eles não poderiam nem ter filhos juntos, e agora duas famílias estavam desprotegidas.
Qual era o objetivo nisso? Ninguém se importava se os adolescentes dhampirs namorassem ou
se os dhampirs adultos tivessem alguns casos. Mas um relacionamento sério? Particularmente
um que envolvia os dois fugindo? Um completo desperdício. E uma desgraça.
Depois de um pouco mais de especulação sobre os Badicas, Lissa e eu deixamos Aaron. Assim
que demos um passo afora, eu escutei um engraçado barulho de movimento seguido de algo
deslizando. Tarde demais percebi o que tinha acontecido, só quando um montão de neve
derretida caiu do teto da capela em cima de nós. Era início de outubro e tínhamos tido neve
antes da época na noite anterior, que começou a derreter quase imediatamente. Como
resultado, a coisa que caiu em cima da gente era muito úmida e muito gelada.
Em Lissa caiu a maior parte, mas mesmo assim eu soltei um gritinho logo que a água gelada
caiu no meu cabelo e pescoço. Alguns outros, ali perto, gritaram também, tendo visto a miniavalanche.
“Você está bem?” eu perguntei para ela. Seu casaco estava ensopado, e seu cabelo de platina
grudado nos lados de sua face.
“Y-yeah,” ela disse rangendo os dentes.
Eu tirei o meu casaco e passei para ela. Ele tinha uma superfície mais impermeável e tinha
repelido a maior parte da água. “Tire o seu.”
“Mas você vai ficar—“
“Pegue esse.”
Ela pegou, e assim que se enfiava no meu casaco, eu finalmente percebi as gargalhadas que
sempre seguem uma situação como essa. Eu evitei os olhares, me focando, em vez disso, em
segurar o casaco molhado de Lissa enquanto ela se trocava.
“Queria que você não estivesse usando um casaco, Rose,” disse Ralf Sarcozy, um Moroi
peculiarmente corpulento e rechonchudo. Eu o odiava. “Essa blusa ficaria boa molhada.”
“Essa blusa é tão feia que deveria ser queimada. Você pegou isso de um mendigo?”
Eu olhei para cima enquanto Mia passaava e entrelaçava seu braço no de Aaron. Seus cachos
loiros estavam perfeitamente arrumados, e ela estava em um incrível par de sapatos de salto
alto pretos que ficariam muito melhores em mim. Pelo menos eles a deixavam mais alta, eu
admito. Aaron estava a alguns passos atrás de nós, mas miraculosamente tinha evitado ser
atingido pela neve derretida. Vendo o quão arrogante ela estava, eu decidi que não tinha
milagre algum envolvido ali.
“Eu imagino que você queira se oferecer para queimá-la, huh?” eu perguntei, me recusando a
deixá-la saber o quanto aquele insulto tinha me incomodado. Eu sabia perfeitamente bem que
minha noção de moda tinha escorregado nos últimos dois anos. “Oh, espere – fogo não é o seu
elemento, é? Você trabalha com água. Que coincidência que um monte tenha caído
justamente em nós.”
Mia olhou como se tivesse sido insultada, mas o brilho em seus olhos mostrou que ela estava
gostando demais disso para ser apenas uma inocente espectadora. “O que isso deveria
significar?”
“Nada para mim. Mas Sra. Kirova provavelmente terá algo a dizer quando ela descobrir que
você usou magia contra outro estudante.”
“Isso não foi um ataque,” ela zombou. “E não fui eu. Foi um ato de Deus.”
Alguns poucos riram, o bastante para a diversão dela. Em minha imaginação eu respondi com,
Isso também, e em seguida a arremessava para um lado da igreja. Na vida real, Lissa
simplesmente me cutucou e disse “Vamos.”
Ela e eu andamos em direção de nossos respectivos dormitórios, deixando para trás
gargalhadas e piadas sobre nosso estado ensopado e sobre como Lissa não saberia nada sobre
especialização. Por dentro, eu fervia. Eu tinha que fazer algo quanto Mia, me toquei. Além da
normal irritação causada pela chateação de Mia, eu não queria que Lissa tivesse que lidar com
mais stress do que ela já tinha. Nós tínhamos ficado bem nessa primeira semana, e eu queria
manter desse jeito.
“Você sabe,” eu disse, “eu penso cada vez mais que você roubar Aaron de volta é uma coisa
boa. Vai ensinar a essa Boneca Vaca uma lição. Eu aposto que ia ser fácil, também. Ele ainda é
louco por você.”
“Eu não quero ensinar uma lição a ninguém,” disse Lissa. “E eu não sou louca por ele.”
“Deixa disso, ela arma brigas e fala de nós pelas costas. Ontem ela me acusou de pegar calças
jeans do Exército da Salvação.”
“Suas calças jeans são do Exército da Salvação.”
“Bem, yeah,” eu retruquei, “mas ela não tem o direito de tirar sarro delas quando ela está
vestindo coisas da Target.”*
“Hey, não tem nada errado com a Target. Eu gosto da Target.”
“Eu também. Essa não é a questão. Ela tenta fazer com que as coisas dela pareçam da Stella
McCartney.”
“E isso é um crime?”
Eu fingi uma expressão solene. “Absolutamente. Você tem que se vingar.”
“Eu já te disse, não estou interessada em vingança.” Lissa me retalhou com um longo olhar.
“Eu você também não deveria estar.”
Eu sorri da forma mais inocente que consegui, e quando cada uma seguiu seu caminho, eu me
senti novamente aliviada pelo fato de que ela não podia ler meus pensamentos.
“E então, quando a grande briga de mulheres vai acontecer?”
Mason estava me esperando do lado de fora do dormitório após eu ter me separado de Lissa.
Ele parecia preguiçoso e fofo, encostado na parede com os braços cruzados enquanto me
olhava.
“Eu com certeza não sei o que você quer dizer.”
Ele desdobrou os braços e caminhou comigo para dentro do edifício, me passando seu casaco
já que eu tinha deixado Lissa ir com o meu seco. “Eu vi vocês discutindo do lado de fora da
capela. Você não tem respeito algum pela casa de Deus?”
Eu bufei. “Você tem praticamente o mesmo respeito que eu tenho, seu bárbaro. Você nem ao
menos vai até lá. Aliás, como você mesmo disse, nós estávamos do lado de fora.”
“E você ainda não respondeu a pergunta.”
Eu só dei um largo sorriso e me enfiei em seu casaco.
Nós ficamos na área comum do dormitório, um saguão muito bem inspecionado e área de
estudo onde estudantes dos dois sexos podiam se misturar, além dos convidados Moroi.
Sendo domingo, estava bastante lotado de tarefas de última hora por causa da aula do
próximo dia. Espiando uma mesa pequena e vazia, eu agarrei o braço de Mason e o puxei na
direção dela.
“Você não deveria ir direto para o seu quarto?”
Fiquei de cócoras no meu assento, olhando em volta cautelosamente. “Tem muita gente aqui
hoje, vai demorar um tempo até que me notem. Deus, eu estou tão cheia de estar trancafiada.
E só se passou uma semana.”
“Eu também estou cheio disso. Nós sentimos sua falta na noite passada. Uma porção de nós
foi e jogamos sinuca na sala de jogos. Eddie estava pegando fogo.”
Eu suspirei. “Não me diga isso. Eu não quero ouvir sobre sua glamurosa vida social.”
“Tudo bem.” Ele apoiou seu cotovelo na mesa e pousou seu queixo em sua mão. “Então me
fale de Mia. Você está para se virar e dar um soco nela um dia, não está? Eu acho que me
lembro de você fazendo isso no mínimo dez vezes com pessoas que te tiravam do sério.”
“Eu sou uma nova, renovada Rose,” eu disse, passando a minha melhor impressão de
seriedade. Que não era muito boa. Ele emitiu uma risada abafada. “Além do mais, se eu fizer
isso, eu vou quebrar a minha condicional com Kirova. Tenho que andar na linha.”
“Em outras palavras, ache algum jeito de se vingar de Mia sem que entre em problemas.”
Eu senti um sorriso forçando os cantos dos meus lábios. “Sabe o que eu gosto em você, Mase?
Você pensa exatamente como eu.”
“Teoria assustadora,” ele replicou secamente. “Me diga então o que pensa disso: eu posso
saber algo sobre ela, mas eu provavelmente não devo lhe contar...”
Eu me inclinei a frente. “Oh, agora você já começou. Você tem que me contar agora.”
“Seria errado,” ele provocou, “Como eu vou saber que você vai usar essa informação para o
bem em vez do mal?”
Eu pisquei várias vezes. “Você consegue resistir a esse rostinho?”
Ele me estudou por um momento. “Não. Eu não consigo, na verdade. Okay, aqui vai: Mia não é
da realeza.”
Eu relaxei de novo na cadeira. “Não brinca. Eu já sabia disso. Eu sei quem é da realeza desde
que tinha dois anos de idade.”
“Yeah, mas não é só isso. Os pais dela trabalham para um dos lordes Drozdovs.” Eu acenei
minha mão impacientemente. Um monte de Moroi trabalha no mundo humano, mas a
sociedade Moroi também tem várias vagas de trabalho para sua própria raça. Alguém
precisava preenchê-las. “Coisa de limpeza. São praticamente servos. Seu pai corta grama e sua
mãe é uma criada.”
Na realidade eu tinha um grande respeito por qualquer um que tinha um trabalho integral,
independentemente do emprego. Pessoas em todos os lugares tinham que fazer coisas
nojentas para viver. Mas, assim como ocorria com a Target, se tornava outro assunto quando
alguém tentava se passar por algo que não é. E durante a semana que estive aqui, me liguei do
quão desesperadamente Mia queria se encaixar com a elite da escola.
“Ninguém sabe,” eu disse pensativamente.
“E ela não quer que saibam. Você sabe como a realeza é.” Ele fez uma pausa. “Bem, exceto por
Lissa, é claro. Eles fariam Mia passer por maus bocados por isso.”
“Como você sabe de tudo isso?”
“Meu tio é guardião para os Drozdovs.”
“E você vem guardando esse segredo, huh?”
“Até você descobrir. Então qual é o caminho que você irá escolher: bem ou mal?”
“Eu acho que vou dar a ela a honra—“
“Srta. Hathaway, você sabe que não deveria estar aqui.”
Uma das inspetoras do dormitório parou em nossa frente, com desaprovação em toda a sua
face.
Eu não estava brincando quando disse que Mason pensava como eu. Ele podia enrolar tão
bem quanto eu. “Nós temos um projeto em grupo para fazer para nossa classe de línguas.
Como nós deveríamos fazer se Rose estiver isolada?”
A inspetora estreitou seus olhos. “Não parece que vocês estejam fazendo um trabalho.”
Eu puxei o livro do padre e o abri aleatoriamente. Eu havia colocado ele na mesa quando nos
sentamos. “Nós estamos, um, trabalhando nisso.”
Ela ainda parecia desconfiada. “Uma hora. Eu vou dar mais uma para você aqui embaixo, e é
bom que eu veja você trabalhando.”
“Sim senhora,” disse Mason de rosto sério. “Absolutamente.”
Ela se afastou ainda olhando para nós. “Meu herói,” eu declarei.
Ele apontou para o livro. “O que é isso?”
“Algo que o padre me deu. Eu tinha uma dúvida sobre o sermão.”
Ele me encarou, estarrecido.
“Oh, pare com isso e pareça interessado.” Eu passei os olhos sobre o índice. “Eu estou
tentando achar uma mulher chamada Anna.”
Mason arrastou sua cadeira, de forma que acabou sentado bem ao meu lado. “Tudo bem.
Vamos estudar.”
Eu encontrei o número da página que me levou até a seção sobre Santo Vladimir, sem
surpresa alguma. Nós lemos rapidamente o capítulo procurando pelo nome de Anna. Quando
achamos, o autor não tinha muito o que dizer sobre ela. Ele tinha incluído um trecho escrito
por um outro cara que aparentemente tinha vivido na mesma época de Santo Vladimir:
E com Vladimir sempre está Anna, filha de Fyodor. O amor deles é inocente e puro como o de
irmão e irmã, e por diversas vezes ela o defendeu contra os Strigoi que buscavam destruir a ele
e a sua santidade. Outrossim, é ela quem o conforta quando o espírito se torna difícil de
suportar, e a escuridão de Satã tenta envolvê-lo e enfraquecer seu próprio corpo e saúde.
Contra isso ela também o defende, pois eles estavam interligados desde que ele salvou a vida
dela quando criança. É um sinal do amor de Deus que Ele tenha enviado ao abençoado
Vladimir uma guardiã como ela, uma que é shadow-kissed e sempre sabe o que está no
coração e na mente dele.
“Aqui está,” Mason disse. “Ela era a guardiã dele.”
“Aqui não diz o que shadow-kissed significa.”
“Provavelmente não significa nada.”
Algo em mim não acreditava nisso. Eu li de novo, tentando interpretar a linguagem antiga.
Mason me observava curiosamente, aparentando querer muito ajudar.
“Talvez eles estivessem namorando,” ele sugeriu.
Eu ri. “Ele era um santo.”
“E daí? Santos provavelmente gostavam de sexo também. Esse negócio de “irmão e irmã” é
provavelmente fachada.” Ele apontou para uma das frases. “Vê? Eles estavam “interligados”.
Ele deu uma piscada. “É um código.”
Interligados. É uma escolha estranha de palavra, mas não quer dizer necessariamente que
Anna e Vladimir estavam arrancando as roupas um do outro.
“Eu não acho isso. Eles eram apenas íntimos. Garotos e garotas podem ser apenas amigos.” Eu
disse isso enfaticamente, e ele me deu uma olhar seco.
“Yeah? Nós somos amigos e eu não sei o que está no seu ‘coração e mente’” Mason fez uma
expressão de falso filósofo. “É claro, alguns argumentam que nunca se sabe o que se passa no
coração de uma mulher—“
“Oh, cala a boca,” eu bufei, socando o braço dele.
“Pois elas são criaturas estranhas e misteriosas,” ele continuou em sua voz de professor, “e um
homem deve saber ler mentes se deseja fazê-las felizes.”
Eu comecei a rir incontrolavelmente e sabia que provavelmente estaria com problemas de
novo. “Bem, tente ler a minha mente e pare de ser tão—“
Eu parei de rir e olhei para baixo, de volta para o livro.
Interligados e sempre sabe o que está no coração e na mente dele.
Eles tinham uma ligação, eu me toquei. Eu poderia apostar tudo que tinha – o que não era
muito – nisso. A revelação era assustadora. Existiam um monte de vagas histórias e mitos
sobre como guardiões e Moroi ‘costumavam ter ligações’. Mas essa era a primeira que eu já
tinha ouvido sobre alguém específico com o qual isso ocorreu.
Mason notou o meu choque. “Você está bem? Você parece meio estranha.”
Eu encolhi os ombros. “Yeah. Bem.”
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
academia de vampiros - beijo das sombras (capitulo 5 )
CINCO
OU MELHOR, ELES TINHAM SIDO Strigoi. Uma tropa de guardiões os caçaram e mataram. Se os
rumores fossem verdadeiros, Christian havia testemunhado tudo isso quando era muito novo.
E por mais que ele não seja Strigoi, algumas pessoas pensavam que ele não está longe disso,
do jeito que ele sempre vestia preto e era introspectivo.
Strigoi ou não, eu não confiava nele. Ele era um idiota, e eu silenciosamente gritava para Lissa
sair dali – não que meu grito tenha adiantado alguma coisa. Estúpida ligação mental de uma só
via.
“O que você está fazendo aqui?” ela perguntou.
“Apreciando a vista, é claro. Essa cadeira de lona é particularmente adorável nesse período do
ano. Logo ali, temos uma velha caixa cheia de escritas do abençoado e louco St. Vladimir. E não
vamos nos esquecer dessa linda mesa sem o pé no canto.”
“Que seja.” Ela girou seus olhos e moveu-se em direção à porta, querendo sair, mas ele
bloqueou seu caminho.
“Bem, e quanto a você?” ele replicou com escárnio. “Por quê você está aqui em cima? Você
não tem festas para ir ou vidas para destruir?”
Um pouco do velho brilho de Lissa retornou. “Wow, isso é hilário. Eu sou como um ritual de
passagem agora? Vai e veja se você consegue deixar a Lissa brava para provar o quão legal
você é? Uma garota que eu nem conheço gritou comigo hoje, e agora eu tenho que lidar com
você? O que é preciso para ser deixada em paz?”
“Oh. Então é por isso que você está aqui em cima. Para uma festinha de auto-piedade.”
“Isso não é brincadeira. Estou falando sério”. Eu poderia dizer que Lissa estava ficando brava.
Isso estava prevalecendo sobre seu sofrimento anterior.
Ele deu de ombros e se encostou casualmente numa quina da parede. “Eu também estou. Eu
amo festinhas de auto-piedade. Quem dera ter trazido os chapéus. Sobre o que você quer se
lastimar primeiro? Sobre como vai te custar um dia todo para que você novamente seja
popular e adorada? Como você terá de esperar umas duas semanas para que a Hollister possa
lhe enviar novas roupas? Se você optou pelo frete rápido, não deve ter que esperar tanto.”
“Deixe-me sair”, ela disse irritadamente, dessa vez empurrando ele para o lado.
“Espere,” ele disse quando ela alcançava a porta. O sarcasmo desapareceu de sua voz.
“Como... ahn, como era?”
“Como era o quê?” ela rebateu.
“Estar lá fora. Longe da Academia.”
Ela hesitou por um momento antes de responder, pega com a guarda baixa pelo o que pareceu
uma genuína tentativa de estabelecer uma conversa. “Foi maravilhoso. Ninguém sabia quem
eu era. Eu era apenas mais um rosto. Não uma Moroi. Não da realeza. Não era ninguém.” Ela
olhou para o chão. “Todo mundo aqui acha que sabe quem eu sou.”
“Yeah. É meio duro deixar seu passado para trás,” ele disse amargamente.
Naquele momento, ocorreu à Lissa – e a mim, por tabela – o quão difícil deve ser estar na pele
de Christian. Na maior parte do tempo, as pessoas o tratam como se ele não existisse. Como se
fosse um fantasma. Elas não falam com ele nem sobre ele. Simplesmente não se davam conta
de sua existência. O estigma do crime de seus pais era muito forte, lançando suas sombras
sobre toda a família Ozera.
Ainda assim, ele a deixou irritada, e ela não estava disposta a sentir pena dele.
“Espere – essa é a sua festinha de auto-piedade agora?”
Ele riu, quase como um incentivo. “Já faz um ano que essa sala tem sido o lugar da minha
festinha de auto-piedade.”
“Desculpe,” disse Lissa sarcasticamente. “Eu vinha aqui antes de ir embora. Eu tenho mais
direito que você.”
“Direito dos sem-teto. Além disso, eu tenho de estar por perto da capela sempre que possível,
para que as pessoas saibam que eu não me tornei um Strigoi... ainda.” Novamente, sua voz
soou com uma tonalidade amarga.
“Eu costumava sempre te ver na missa. Essa é a única razão de você ir? Para parecer bem?”
Strigoi não pode entrar em local sobre solo sagrado. Um pouco mais daquela coisa de
pecando-contra-o-mundo.
“É claro,” ele disse. “Por quê mais eu iria? Pelo bem da sua alma?”
“Que seja,” disse Lissa, que claramente tinha uma opinião diferente. “Eu o deixarei sozinho
então.”
“Espere,” ele disse novamente. Não parecia que ele queria deixá-la ir. “Vou te propor um
acordo. Você pode ficar por aqui também se me disser uma coisa.”
“O quê?” Ela olhou de volta para ele.
Ele se inclinou para frente. “De todos os rumores que ouvi sobre você hoje – e acredite, eu
escutei muitos, mesmo que ninguém dissesse algo diretamente a mim – tem um que não foi
muito comentado. Eles dissecaram todo o resto: porque você fugiu, o que você fez lá fora,
porque você voltou, a sua especialização, o que Rose disse para Mia, blá blá blá. E no meio de
tudo isso, ninguém, ninguém nunca questionou aquela história estúpida que a Rose contou
sobre o fato de existir vários tipos de gentinha que deixam você tomar seu sangue.”
Ela desviou o olhar, e eu pude sentir que suas bochechas começaram a arder. “Não é estúpida,
nem uma história.”
Ele riu suavemente. “Eu vivi com humanos. Minha tia e eu estivemos longe depois que meus
pais…morreram. Não é tão fácil assim encontrar sangue.” Quando ela não respondeu, ele riu
novamente. “Foi a Rose, não foi? Ela te alimentou.”
Um medo renovado surgiu através dela e de mim. Ninguém na escola poderia saber sobre isso.
Kirova e os guardiões que estavam presentes durante a cena sabiam, mas eles guardaram essa
informação para si.
“Bem. Se isso não é amizade, eu não sei o que seria,” ele disse.
“Você não pode dizer a ninguém,” ela soltou.
Isso era tudo o que precisávamos. Como eu tinha sido lembrada, alimentadores eram viciados
em mordidas de vampiro. Nós aceitávamos isso como parte da vida, mas ainda assim os
desprezávamos por isso. Para todos os outros – especialmente para um Dhampir – deixar um
Moroi tomar o seu sangue era quase, bem, sujo. Na realidade, uma das coisas mais
pervertidas, praticamente pornográfica que um Dhampir pode fazer é deixar um Moroi tomar
o seu sangue durante o sexo.
Lissa e eu não tínhamos feito sexo, lógico, mas ambas sabíamos o que os outros iriam pensar
sobre eu a alimentar.
“Não conte a ninguém.” Lissa repetiu.
Ele enfiou suas mãos nos bolsos do casaco e sentou em um dos engradados. “Para quem eu
iria contar? Olhe, vá se sentar no assento da janela. Você pode tê-lo hoje e ficar aí por um
tempo. Se você não estiver ainda com medo de mim”.
Ela hesitou, estudando-o. Ele parecia obscuro e rude, lábios curvados em um tipo de sorriso
“sou-um-rebelde-e-tanto”. Mas ele não parecia tão perigoso. Não parecia Strigoi.
Cuidadosamente, ela sentou novamente no assento da janela, esfregando inconscientemente
seus braços contra o frio.
Christian a observava, e um momento depois, o ar esquentou consideravelmente.
Lissa encontrou os olhos de Christian e sorriu, surpresa por nunca não ter notado o quão azul
eles eram. “Você se especializou em fogo?”
Ele assentiu e puxou uma cadeira quebrada. “Agora nós temos acomodações de luxo”.
Eu sai da visão bruscamente.
“Rose? Rose?”
Piscando, eu me foquei no rosto de Dimitri. Ele estava se inclinando em minha direção, suas
mãos agarrando meus ombros. Eu tinha parado de andar; nós paramos no meio do pátio que
separava os edifícios da parte superior da escola.
“Você está bem?”
“Eu...yeah. Eu estava…estava com Lissa…” Eu pus uma mão na minha testa. Eu nunca tinha tido
uma experiência tão longa ou clara como essa. “Eu estava em sua cabeça”.
“Sua...cabeça?”
“Yeah. É uma parte da nossa ligação mental.” Eu não estava muito afim de explicar sobre isso.
“Está tudo bem com ela?”
“Yeah, ela está...” Eu hesitei. Estava tudo bem com ela? Christian Ozera tinha acabado de
convidá-la para ficar um tempo com ele. Nada bom. Havia o “navegar com a correnteza”, e
havia o se virar para o lado negro da força. Mas os sentimentos que se agitavam em nossa
ligação mental não eram mais chateados ou de medo. Ela estava quase contente, apesar de
ainda um pouco nervosa. “Ela não está em perigo”, eu disse finalmente. Eu espero.
“Você pode continuar?”
O rígido, estóico guerreiro que eu conheci antes tinha ido embora – apenas por um minuto – e
realmente parecia preocupado. Verdadeiramente preocupado. Sentindo seus olhos em mim
daquela forma fez algo se agitar dentro de mim – o que era estúpido, é claro. Eu não tinha
razão alguma para ficar tão pateta só porque o homem era bonito demais para o seu próprio
bem. Afinal, ele é um deus anti-social, de acordo com Mason. Um que supostamente iria me
deixar com todos os tipos de dores.
“Yeah. Estou bem.”
Eu fui para o vestiário do ginásio e vesti as roupas de ginástica que alguém finalmente resolveu
me dar depois de passar um dia treinando de jeans e camiseta. Nojento. Lissa estando com
Christian me pertubava, mas eu deixei esse pensamento para depois assim que meus músculos
me informaram que não queriam ser submetidos a mais nenhum exercício por hoje.
Então eu sugeri a Dimitri que, quem sabe, ele poderia me dispensar dessa vez.
Ele riu, e eu tive a total certeza de que era de mim e não comigo.
“Por quê isso é engraçado?”
“Oh,” ele disse, seu sorriso sumindo. “Você falou sério.”
“É claro que eu falei! Olhe, eu estive, tecnicamente, acordada por dois dias. Por quê nós temos
que começar esse treinamento agora? Me deixa ir para a cama,” eu choraminguei. “É só uma
horinha”.
Ele cruzou seus braços e olhou para mim. Sua preocupação de mais cedo havia ido embora.
Agora eram apenas negócios. Amor Bruto. “Como você se sente agora? Depois do treinamento
que fez até agora?”
“Dói pra caramba.”
“Você vai se sentir pior amanhã.”
“E daí?”
“E daí, melhor entrar de cabeça no treinamento agora enquanto você não se sente... tão mal.”
“Que tipo de lógica é essa?” Eu retruquei.
Mas eu não discuti mais enquanto ele me conduzia até a sala de musculação. Ele me mostrou
os pesos e apontou os exercícios que queria que eu fizesse, depois se espichou num canto com
uma novela de Velho Oeste. Que deus.
Quando eu terminei, ele parou do meu lado e demonstrou alguns exercícios de alongamento.
“Como você acabou sendo alocado como guardião da Lissa?” eu perguntei. “Você não estava
aqui há alguns anos atrás. Ao menos você foi treinado nesta escola?”
Ele não respondeu de imediato. Eu tive a sensação de que ele não costuma falar sobre si
mesmo com freqüência. “Não, eu freqüentei uma escola na Sibéria.”
“Whoa. Esse deve ser o único lugar pior do que Montana.”
Um vislumbre de algo – talvez divertimento – brilhou nos olhos dele, mas ele não demonstrou
ter notado a brincadeira. “Depois da formatura, eu fui guardião de um lorde da família Zeklos.
Ele foi morto recentemente.” Seu sorriso sumiu, seu rosto ficou obscuro. “Me mandaram aqui
porque necessitavam de guardiões extras no campus. Quando a princesa apareceu, eles me
designaram para ela, já que eu já estava por aqui. Não que isso seja importante até que ela
deixe o campus.”
Eu pensei no que ele disse antes. Algum Strigoi matou o cara que ele estava designado a
proteger? “Esse lorde morreu durante a sua vigia?”
“Não. Ele estava com o seu outro guardião. Eu estava longe.”
Ele ficou em silêncio, sua mente obviamente em outro lugar. Os Moroi esperavam muito de
nós, todavia reconheciam que os guardiões são – mais ou menos – apenas humanos. Então,
guardiões eram pagos e tinham folga como em qualquer outro emprego. Alguns guardiões
radicais – como a minha mãe – recusam férias, jurando nunca sair do lado de seus Moroi.
Olhando para Dimitri, tive a sensação de que ele poderia muito bem se tornar um desses. Se
ele tivesse estado longe por causa de uma dispensa legítima, ele mal poderia se culpar pelo o
que ocorreu com aquele lorde. Ainda assim, ele provavelmente se culpa. Eu também me
culparia se algo acontecesse com Lissa.
“Ei,” eu disse, repentinamente querendo animá-lo, “você ajudou a fazer o plano para nos
trazer de volta? Porque foi muito bom. Força brutal e tudo aquilo.”
Ele levantou curiosamente uma das sobrancelhas. Legal. Eu sempre quis fazer isso. “Você está
me elogiando por isso?”
“Bem, foi bem melhor do que a tentativa anterior deles.”
“Tentativa anterior?”
“Yeah. Em Chicago. Com um bando de psi-hounds.”
“Essa foi a primeira vez que encontramos vocês. Em Portland.”
Eu parei de me alongar e sentei de pernas cruzadas. “Hum, eu não acho que tenha imaginado
psi-hounds. Quem mais poderia tê-los enviado? Eles só respondem aos Moroi. Talvez ninguém
tenha te contado.”
“Talvez,” ele disse encerrando o assunto. Eu poderia dizer que, pela sua expressão, ele não
acreditou na história.
Eu retornei ao dormitório dos aprendizes depois disso. Os estudantes Moroi viviam do outro
lado do pátio, perto das áreas comuns. A forma de organização do ambiente era parcialmente
baseada na conveniência. Estar aqui deixava nós, aprendizes, perto do ginásio e áreas de
treinamento. Todavia, nós também vivíamos separados para favorecer as diferenças entre os
estilos de vida Moroi e dhampir. O dormitório deles quase não tinha janela alguma, tirando
algumas pintadas que ofuscavam os raios de sol. Eles também tinham uma seção especial
onde alimentadores sempre estavam à disposição. O dormitório dos aprendizes foi construído
de uma forma mais aberta, permitindo maior entrada de luz.
Eu tinha o meu próprio quarto porque existiam poucos aprendizes, garotas menos ainda. O
quarto que me deram era pequeno e simples, com duas camas de solteiro e uma escrivaninha
com um computador. Meus poucos pertences foram trazidos de Portland e estavam, naquele
momento, distribuídos em caixas pelo quarto. Eu revistei as caixas, tirando uma camiseta para
dormir. Achei duas fotos quando fiz isso, uma de Lissa e eu num jogo de futebol americano em
Portland e outra tirada durante a viagem de férias com a família dela, um ano antes do
acidente.
Eu as coloquei na minha escrivaninha e liguei o computador. Alguém do suporte técnico me
deixou um papel com as instruções de renovação do meu e-mail e criação de uma senha. Eu fiz
as duas coisas, feliz por descobrir que ninguém tinha se tocado de que isso serviria como uma
forma de me comunicar com Lissa.
Como estava muito cansada para escrever para ela naquele momento, estava para desligar o
computador quando notei que eu já tinha recebido uma mensagem. De Janine Hathaway. Era
curta:
Estou feliz que tenha voltado. O que você fez é imperdoável.
“Amo você também, mãe,” eu resmunguei, desligando tudo.
Quando eu fui para a cama, mais tarde, eu peguei no sono antes mesmo de encontrar o
travesseiro, e exatamente como Dimitri tinha previsto, eu me senti dez vezes pior quando
acordei na manhã seguinte. Deitada na cama, reconsiderei as vantagens de fugir. Nesse
momento, lembrei de ter levado uma surra e cheguei a conclusão de que a única forma de
prevenir que isso ocorresse novamente era sofrer um pouco mais nessa manhã.
Meu corpo dolorido fez com que tudo fosse muito pior, mas eu sobrevivi ao treinamento préaula
com Dimitri e às aulas subseqüentes sem passar mal ou desmaiar.
No almoço, eu logo arranquei Lissa da mesa de Natalie e passei um sermão digno-de-Kirova
sobre Christian – particularmente castigando-a por ter deixado ele saber sobre nosso acordo
quanto ao sangue. Se isso vazasse, iria nos matar socialmente, e eu não confiava nele para
guardar o segredo.
Lissa tinha outras preocupações.
“Você estava na minha cabeça de novo?” ela exclamou. “Por tanto tempo?”
“Eu não fiz de propósito,” argumentei. “Apenas aconteceu. E esse não é o ponto. Por quanto
tempo vocês ficaram juntos, afinal?”
“Não muito tempo. Foi meio que…divertido.”
“Bem, você não pode fazer isso de novo. Se as pessoas descobrem que você está andando com
ele, irão te crucificar.” Eu olhei para ela cautelosamente. “Você não está, digamos, afim dele,
está?”
Ela zombou. “Não. É claro que não.”
“Ótimo. Porque se é para você ir atrás de algum garoto, roube Aaron de volta.” Ele era chato, é
verdade, mas era seguro. Assim como Natalie. Porque todas as pessoas inofensivas eram tão
sem graça? Talvez essa era a definição de “seguro”.
Ela riu. “Mia arrancaria meus olhos fora”.
“Nós podemos com ela. Aliás, ele merece alguém que não faça compras na GAP Infantil.”
“Rose, você precisa parar de dizer coisas como essa.”
“Eu só estou dizendo o que você não diz.”
“Ela é só um ano mais nova,” disse Lissa. Ela riu. “Não posso acreditar que você acha que sou
eu quem vai nos colocar em problemas.”
Sorrindo enquanto caminhávamos em direção à aula, olhei de lado para ela. “Aaron realmente
está bem gatinho, huh?”
Ela sorriu e evitou os meus olhos. “É. Bem gatinho.”
“Ooh. Está vendo? Você deveria ir atrás dele.”
“Que seja. Eu estou bem em só sermos amigos por agora.”
“Amigos que costumavam enfiar a língua dentro da boca um do outro.”
Ela girou os olhos.
“Tudo bem.” Eu parei de provocá-la. “Deixe o Aaron no jardim de infância. Enquanto isso,
fique o mais longe possível de Christian. Ele é perigoso.”
“Você está exagerando. Ele não vai se tornar um Strigoi.”
“Ele é uma má influência.”
Ela riu. “Você acha que eu estou em perigo de me tornar uma Strigoi?”
Ela não esperou por minha resposta, em vez disso empurrou a porta, abrindo-a para a nossa
aula de ciências. Parada ali na porta, eu repassei apreensiva as palavras dela e então a segui
um momento depois. Quando fiz isso, fui obrigada a ver o poder da realeza em ação. Alguns
garotos – com algumas garotas que assistiam e davam risadinhas – estavam provocando um
desengonçado Moroi. Eu não o conhecia muito bem, mas sabia que ele era pobre e
definitivamente não era da realeza. Uma dupla de seus provocadores eram usuários de magia
de ar, e fizeram voar os papéis de sua mesa, lançando correntes de ar para que voassem
enquanto o garoto tentava alcançá-los.
Meus instintos me compeliram a fazer algo, talvez ir acertar um dos usuários de ar. Mas eu
não podia começar uma briga com todo mundo que me incomodasse, e certamente não com
um grupo da realeza – especialmente quando Lissa precisava ficar longe de seus radares. Então
eu apenas pude lançar a eles um olhar de desgosto enquanto caminhava para minha mesa.
Logo que fiz isso, uma mão agarrou meu braço. Jesse.
“Hey,” eu disse brincando. Felizmente, ele pareceu não estar participando da sessão de
tortura. “É proibido tocar na mercadoria”.
Ele me lançou um sorriso, mas manteve sua mão em mim. “Rose, conte ao Paul sobre aquela
vez em que você começou uma briga na aula da Sra. Karp.”
Ergui minha cabeça na direção deles, dando um sorriso divertido. “Eu comecei um monte de
brigas na aula dela.”
“Aquela com o caranguejo-ermitão. E o gerbil.”*
Eu ri, relembrando. “Oh, yeah. Era um hamster, eu acho. Eu só joguei ele dentro do tanque do
caranguejo, e eles dois estavam tão emocionados por estar tão próximos de mim, que eles
foram com tudo.”
Paul, um garoto sentado perto e que eu não conhecia, começou a rir também. Ele foi
transferido no ano passado, aparentemente, e não tinha escutado a história. “Quem ganhou?”
Eu olhei para Jesse de forma cômica. “Eu não lembro. Você lembra?”
“Não. Eu só me lembro de Karp enlouquecendo.” Ele se virou para Paul. “Cara, você devia ter
visto essa professora toda atrapalhada que nós tínhamos. Costumava pensar que as pessoas
estavam atrás dela e explodia com coisas que não faziam o mínimo sentido. Ela era maluca.
Tinha o hábito de andar pelo campus enquanto todos estavam dormindo.”
Eu sorri rigidamente, como se eu pensasse que isso era engraçado. Em vez disso, eu lembrei da
Sra. Karp de novo, surpresa por pensar nela de novo em dois dias. Jesse estava certo – ela
costumava andar muito pelo campus enquanto trabalhava aqui. Era de dar arrepios. Eu
encontrei com ela uma vez – inesperadamente.
Eu tinha descido da minha janela do dormitório para ir encontrar umas pessoas. Já era tarde, e
todos nós devíamos estar em nossos quartos, dormindo. Essas táticas de fuga eram uma
prática regular para mim. Eu era boa nisso.
Mas eu caí naquela vez. O meu quarto ficava no segundo andar, e eu perdi meu apoio mais ou
menos na metade do caminho até o chão. Sentindo o chão chegar perto de mim, eu tentei
desesperadamente me agarrar em algo que diminuísse a velocidade da minha queda. Eu
estava muito preocupada para sentir os cortes que a pedra rígida do edifício causaram em
minha pele. Caí com tudo na terra gramada, as costas primeiro, tendo minha arrogância
nocauteada.
“Mau jeito, Rosemarie. Você devia ser mais cautelosa. Seus instrutores iriam ficar
desapontados.”
Espiando entre o embaraçado do meu cabelo, vi a Sra. Karp me olhando, um olhar perplexo
em seu rosto. Dor, nesse meio tempo, jorrou através de cada parte do meu corpo.
Ignorando isso da melhor forma que eu podia, me levantei com dificuldade. Estar em sala de
aula com a Louca Karp enquanto rodeada de outros estudantes é uma coisa. Estar ali fora
sozinha com ela era totalmente diferente. Ela sempre teve um sinistro, distraído brilho em
seus olhos que fazia minha pele se encher de arrepios. Também havia, agora, a grande
possibilidade dela me arrastar até Kirova para uma detenção. Mais assustador ainda.
No lugar disso, ela apenas sorriu e tomou as minhas mãos. Eu vacilei, mas deixei que ela as
tomasse. Ela fez “tsic tsic” quando viu os arranhões. Estreitando seu aperto neles, ela
levemente franziu as sobrancelhas. Um formigamento ardeu na minha pele, junto de uma
espécie de zunido agradável, e então as feridas se fecharam. Eu tive uma breve sensação de
vertigem. Minha temperatura elevou-se. O sangue desapareceu, assim como as dores no meu
quadril e na minha perna.
Ofegando, eu puxei minhas mãos num solavanco. Eu já tinha visto bastante da magia Moroi,
mas nunca algo parecido com aquilo.
“O quê...o quê você fez?”
Ela me deu aquele sorriso esquisito novamente. “Volte para seu dormitório, Rose. Existem
coisas ruins aqui fora. Nunca se sabe o que está te seguindo.”
Eu continuava encarando minhas mãos. “Mas...”
Olhei novamente para ela e pela primeira vez notei cicatrizes nos cantos de sua testa. Como se
unhas tivessem sido cravadas nela. Ela piscou para mim. “Eu não vou contar sobre você se
você não contar sobre mim.”
Eu voltei ao presente, perturbada pela memória daquela noite bizarra. Jesse, nesse meio
tempo, estava me falando sobre uma festa. “Você tem que se soltar da sua coleira hoje à
noite. Nós vamos até aquele local na floresta em torno de oito e meia. Mark conseguiu alguma
maconha.”
Eu suspirei melancolicamente, arrependimento substituindo o calafrio que senti com a
lembrança de Sra. Karp. “Não posso me livrar da coleira. Eu tenho um carcereiro Russo.”
Ele largou meu braço, parecendo desapontado, e passou uma mão em seu cabelo cor de
bronze. Yeah. Não poder estar com ele era uma grande vergonha. Eu realmente vou ter que
consertar isso algum dia. “Você não pode sair por bom comportamento?” Ele brincou.
Eu dei a ele o que eu esperava que fosse um sorriso sedutor enquanto encontrava meu
assento. “Claro,” eu disse sobre meu ombro. “Se eu algum dia tivesse sido boa”.
academia de vampiros - beijo das sombras (capitulo 4)
às suas casas.
QUATRO
NÓS NÃO TÍNHAMOS A ATENÇÃO de toda a área comum dessa vez, graças a Deus, mas alguns
transeuntes pararam para olhar.
“O que diabos você pensa que está fazendo?” perguntou a Garota Boneca, grandes olhos azuis
e brilhando com fúria. De perto, agora, eu podia ter uma visão melhor dela. Ela tinha a mesma
compleição magra da maioria dos Moroi, mas não o peso normal, o que era parte do motivo
dela aparentar ser tão jovem. O pequenino vestido roxo que ela estava usando era lindo – o
que me lembrava que, na verdade, eu estava vestida com roupas de brechó* - mas uma
inspeção mais atenciosa me fez pensar que era uma imitação falsa de algum designer.
Eu cruzei os braços ao redor do peito. “Está perdida, garotinha? O primário fica do lado oeste
do campus.”
Eu cruzei os braços ao redor do peito. “Está perdida, garotinha? O primário fica do lado oeste
do campus.”
Um rubor rosa se espalhou por toda a sua bochecha. “Nunca mais toque em mim. Se você
ferrar comigo, eu ferro com você também."
Oh cara, que tipo de frase de efeito era essa. Somente um balanço de cabeça de Lissa me
impediu de soltar toda uma quantidade de respostas hilárias. Em vez disso, eu optei pela
simples força bruta, por assim dizer.
“E se você mexer conosco de novo, eu quebro você em duas. Se você não acredita, pergunte a
Dawn Yarrow sobre o que eu fiz ao braço dela na oitava série. Você, provavelmente, devia
estar na hora da soneca**quando isso aconteceu.”
*No original "thrift-shop". Aparentemente, são lugares , estilo brechós e antiquários, onde
parte do dinheiro das coisas que se vendem vai para doações, ou então onde você pode
simplesmente fazer doações.
** No jardim da infância nos Estados Unidos existe o “nap time”, depois do almoço, onde as
crianças tomam leite e dormem na sala de aula.
O incidente com Dawn não havia sido um dos meus melhores momentos. Eu realmente não
esperava quebrar nenhum osso dela quando a empurrei da árvore. Mesmo assim, o incidente
havia me dado uma má reputação, acrescentando à de sabichona. A história tinha ganhado um
status legendário, e eu gostava de imaginar que isso ainda era contado em volta de fogueiras
tarde da noite. Julgando pelo olhar no rosto da garota, ainda era.
Um dos membros da patrulha deu a volta justo nessa hora, lançando um olhar suspeito para a
nossa reuniãozinha. A Garota Boneca se afastou, pegando Aaron pelo braço. “Venha,” ela
disse.
“Hey, Aaron,” eu disse alegremente, me recordando de que ele estava lá. “Foi bom vê-lo
novamente.”
Ele me deu um aceno rápido e um sorriso desconfortável, enquanto a garota o arrastava para
fora. O bom velho Aaron. Ele podia ser bonzinho e bonitinho, mas agressivo ele não era.
Me virei para Lissa. “Você está bem?” Ela afirmou com a cabeça. “Alguma idéia de quem seja a
pessoa que eu acabei de ameaçar?”
“Nenhuma.” Eu comecei a conduzi-la para a fila do almoço, mas ela agitou a sua cabeça para
mim. “Preciso ir ver os alimentadores.”
Um sentimento engraçado se estabeleceu em mim. Eu tinha ficado acostumada a ser sua fonte
principal de sangue e o pensamento sobre retornar à rotina normal Moroi pareceu estranha.
De fato, quase me incomodou. Não deveria. Alimentação diária fazia parte da vida de um
Moroi, uma coisa no qual não pude oferecê-la enquanto morávamos por nossa conta. Tinha
sido uma situação incômoda, uma que me deixava fraca nos dias de alimentação e ela fraca
nos dias entre eles. Eu deveria estar feliz pelo fato de que ela teria alguma normalidade.
Eu forcei um sorriso. “Claro.”
Nós andamos para a sala de alimentação, que ficava adjacente à cafeteria. Era feito de
pequenos cubículos, separando o lugar numa tentativa de oferecer privacidade. Uma mulher
Moroi de cabelos escuros nos cumprimentou na entrada e olhou de relance para a sua
prancheta, passando as páginas. Achando o que ela queria, fez algumas anotações e então fez
um gesto para que Lissa a acompanhasse. Ela me deu um olhar confuso, mas não me impediu
de entrar.
Ela nos guiou para um dos cubículos onde uma mulher gorda de meia-idade estava sentada
folheando uma revista. Ela olhou para cima devido à nossa aproximação e sorriu. Em seus
olhos, eu podia ver a aparência sonhadora e vidrada que a maioria dos alimentadores tinham.
Ela provavelmente já tinha quase alcançado a sua quota do dia, julgando pelo modo como ela
parecia estar doidona.
Reconhecendo Lissa, seu sorriso alargou. “Bem-vinda de volta, Princesa.”
A recepcionista nos deixou, e Lissa se sentou na cadeira próxima à mulher. Eu senti um
sentimento de desconforto nela, um pouco diferente do meu próprio. Era estranho para ela
também; depois de tanto tempo. A alimentadora, no entanto, não tinha tal estranhamento.
Um olhar faminto percorreu seu rosto – como uma viciada que estava prestes a ganhar mais
uma dose.
Uma aversão caiu sobre mim. Era um velho instinto, um que havia sido trabalhado através dos
anos. Alimentadores eram essenciais à vida dos Moroi. Eles eram humanos que se dispuseram
por livre e espontânea vontade a ser uma fonte regular de sangue, humanos das extremidades
da sociedade que haviam dado suas vidas para o mundo secreto dos Moroi. Eles eram bem
cuidados e tinham todos os confortos de que poderiam precisar. Mas no fundo disso, eles
eram como usuários de drogas, viciados na saliva dos Moroi e da adrenalina oferecida em cada
mordida. Os Moroi – e os guardiões – desprezavam essa dependência, apesar dos Moroi não
sobreviverem sem isso, a não ser que pegassem as vítimas à força. Hipocrisia em seu nível mais
elevado.
A alimentadora inclinou sua cabeça, dando a Lissa acesso total ao seu pescoço. Sua pele ali
estava marcada com cicatrizes de anos de mordidas diárias. As alimentações infreqüentes que
Lissa e eu tínhamos feito mantiveram meu pescoço limpo; as marcas de mordida não duravam
mais que um dia ou dois.
Lissa se inclinou para frente, as presas mordendo a pele dócil da alimentadora. A mulher
fechou os olhos, fazendo um som suave de prazer. Eu engoli, assistindo Lissa beber. Eu não
podia ver nenhum sangue, mas podia imagina-lo. Um impulso de emoção surgiu em meu
peito: desejo. Ciúmes. Eu desviei os meus olhos, encarando o chão fixamente. Mentalmente,
eu me censurei.
Qual é o seu problema? Por que você deveria sentir falta disso? Você só fazia isso uma vez por
dia. Você não é uma viciada, não como ela. E você não quer ser.
Mas eu não podia evitar, não podia evitar o modo como me sentia quando lembrava da
felicidade e adrenalina da mordida de um vampiro.
Lissa terminou e nós voltamos para a área comum, indo para a direção da fila do almoço. Era
pequena, sendo que só tínhamos mais quinze minutos, e eu me adiantei e comecei a encher
meu prato com batata fritas e alguns pedacinhos redondos de algo que parecia com nuggets
de frango. Lissa só pegou um iogurte. Moroi precisava de comida, como dhampirs e humanos
precisavam, mas raramente tinham algum apetite depois de beber sangue.
“Então, como foram as aulas?” eu perguntei.
Ela deu de ombros. Seu rosto estava iluminado com cor e vida agora. “Tudo bem. Um monte
de olhares. Muitos olhares. Muitas perguntas sobre onde nós estávamos. Cochichos.”
“Comigo também,” disse. A atendente fez um exame minucioso da gente, e nós nos dirigimos
para uma mesa. Eu olhei Lissa de esguelha. “Tudo bem isso para você? Eles não estão te
incomodando, estão?”
“Não – está tudo bem.” As emoções vindas através da ligação contradiziam suas palavras.
Sabendo que eu podia sentir isso, ela tentou mudar de assunto me dando o seu horário das
aulas. Eu dei uma conferida.
1º Horário Russo 2
2º Horário Literatura Colonial Americana
3º Horário Princípios do Controle Elementar
4º Horário Poesia Antiga
– Almoço –
5º Horário Comportamento e Fisiologia Animal
6º Horário Cálculo Avançado
7º Horário Cultura Moroi 4
8º Horário Artes Eslavas
“Nerd,” eu disse. “Se você fosse estúpida em matemática igual a mim, nós teríamos a mesma
programação pela tarde.” Eu parei de andar. “Porque você está em princípios elementar? Isso
é uma aula do primeiro ano.”
Ela me olhou. “Porque os veteranos têm aulas especializadas.”
Nós caímos no silêncio com isso. Todo o poder da magia elementar Moroi. Era uma das coisas
que diferenciavam vampiros vivos dos Strigoi, os vampiros mortos. Moroi viam a magia como
um dom. Era parte de suas almas e os conectavam com o mundo.
Há muito tempo atrás, eles usavam a magia abertamente evitando desastres naturais e
ajudando com coisas como comida e produção de água. Eles não precisavam mais fazer isso
tanto assim, mas a magia ainda estavam em seu sangue. Queimando-os e fazendo com que
quisessem alcançar a terra e aperfeiçoar seu poder. Academias como esta existiam para ajudar
os Moroi a controlar a magia e aprender a fazer coisas cada vez mais complexas com ela.
Estudantes também tinham de aprender as regras que rodeavam a magia, regras que foram
impostas a séculos e que eram reforçadas de forma estrita.
Cada Moroi tinha uma pequena habilidade em cada elemento. Quando eles chegavam à nossa
idade, estudantes se “especializavam” quando um elemento se tornava mais forte que os
outros: terra, água, fogo, ou ar. Não se especializar era como ser um adolescente sem passar
pela puberdade.
E Lissa... bem, Lissa não tinha se especializado ainda.
“É a Sra. Carmack quem ainda ensina isso? O que ela disse?”
“Ela disse que não está preocupada. Ela pensa que ainda virá.”
“Você – você contou a ela sobre – “
Lissa balançou a cabeça. “Não. Lógico que não.”
Nós deixamos o assunto morrer. Era um do qual nós pensávamos muito sobre, mas que
raramente falávamos.
Nós começamos a andar novamente, olhando as mesas enquanto decidíamos onde sentar.
Alguns pares de olhos nos olhavam com evidente curiosidade.
“Lissa!” veio uma voz próxima. Olhando de relance, vimos Natalie acenar para nós. Lissa e eu
trocamos olhares. Natalie era meio que a prima de Lissa do mesmo modo que Victo era meio
que seu tio, mas nós nunca andávamos muito com ela.
Lissa deu de ombros e se dirigiu em sua direção. “Porque não?”
Eu a segui relutantemente. Natalie era boazinha, mas também a pessoa mais desinteressante
que já conheci. A maioria da realeza no colégio desfrutava de um tipo de status de
celebridade, mas Natalie nunca se encaixou com esse pessoal. Ela era muito simples, muito
desinteressada na política da Academia, e muito sem noção para realmente lidar com isso.
Os amigos de Natalie nos olhou com uma curiosidade quieta, mas ela não se controlou. Ela
jogou seus braços ao nosso redor. Como Lissa, ela tinha os olhos verde-jade, mas seus cabelos
eram de um preto azeviche, como os de Victor haviam sido antes da doença os deixar
grisalhos.
“Você está de volta! Eu sabia que voltaria! Todo mundo dizia que você havia ido para sempre,
mas eu nunca acreditei nisso. Sabia que você não poderia ficar longe. Porque você foi? Há
tantas histórias sobre o porquê de você ter ido embora!” Lissa e eu trocamos olhares
enquanto Natalie tagarelava. “Camille disse que uma de vocês ficara grávida e fugiram para
poder fazer um aborto, mas eu sabia que isso não poderia ser verdade. Mais alguém disse que
vocês fugiram para ficar com a mãe da Rose, mas eu imaginei que Sra. Kirova e Papai não
ficariam tão chateados se vocês tivessem ido para lá. Você sabia que nós podemos virar
companheiras de quarto? Eu estava falando com...”
Continuamente ela conversou, mostrando suas presas enquanto falava. Eu sorri
educadamente, deixando Lissa lidar com a ofensiva até que Natalie fez uma pergunta perigosa.
“Como você conseguia sangue, Lissa?”
A mesa nos observava questionando o congelamento de Lissa, mas eu imediatamente entrei
na conversa, a mentira vindo facilmente aos meus lábios.
“Oh, isso é fácil. Existem muitos humanos que querem fazer isso.”
“Sério?” perguntou uma das amigas de Natalie, com os olhos bem abertos.
“Yep. Você os encontra em festas e coisas do tipo. Eles todos estão procurando uma dose de
alguma coisa, eles nem percebem que é um vampiro que está fazendo isso: a maioria está tão
doidão que nem lembram de nada.” Meus já vagos detalhes se acabaram, então eu
simplesmente dei de ombros do melhor jeito maneiro e confiante que consegui. Não era como
se algum deles soubesse fazer melhor. “Como eu disse, era fácil. Quase mais fácil do que ter
nossos próprios alimentadores.”
Natalie aceitou isso e então se lançou em outro assunto. Lissa me deu um olhar agradecido.
Ignorando a conversa novamente, eu observei os rostos familiares, tentando entender quem
estava andando com quem e como o poder havia sido transferido dentro do colégio. Mason,
sentado com um grupo de aprendizes, captou meu olhar, e eu sorri. Perto dele, estava sentado
um grupo da realeza Moroi, rindo de alguma coisa. Aaron e a garota loira sentavam lá
também.
“Hey, Natalie,” eu disse, me virando e a cortando. Ela não pareceu perceber ou se importar.
“Quem é a nova namorada de Aaron?”
“Huh? Oh. Mia Rinaldi.” Vendo minha expressão vazia, ela perguntou, “Não se lembra dela?”
“Eu devia? Ela estava aqui quando fomos embora?”
“Ela sempre esteve aqui,” disse Natalie. “Ela só é um ano mais nova que nós.”
Eu disparei um olhar questionador para Lissa, que somente deu de ombros.
“Por que ela está tão pirada com a gente?” eu perguntei. “Nenhuma de nós duas a conhece.”
“Eu não sei,” Natalie respondeu. “Talvez ela esteja com ciúmes do Aaron. Ela não era muita
coisa quando vocês partiram. Ela ficou muito popular muito rápido. Ela não é da realeza nem
nada, mas uma vez que começou a namorar com Aaron, ela–“
“Okay, obrigada,” eu interrompi. “Isso realmente não – “
Eu olhei para cima do rosto de Natalie para o do Jesse Zeklos, no momento em que ele estava
passando pela nossa mesa. Ah, Jesse. Eu havia esquecido dele. Você flerta com outros garotos
simplesmente pelo prazer do flerte. Você flerta com Jesse na esperança de ficar semi-nua com
ele. Ele era da realeza Moroi, e ele era gostoso, ele devia usar uma placa CUIDADO:
INFLAMÁVEL. Ele encontrou meus olhos e sorriu.
“Hey Rose, bem vinda de volta. Você ainda está despedaçando corações?”
“Está se oferecendo?”
Seu sorriso se alargou. “Vamos sair um dia desses e descobrir. Se você se livrar da sua
condicional.”
Ele continuou andando, e eu o olhei de forma admiravelmente. Natalie e suas amigas me
olharam incrédulas. Eu podia não ser um deus no estilo Demitri, mas nesse grupo, Lissa e eu
éramos deuses – ou pelo menos ex-deuses – de uma outra forma.
“Oh meu Deus,” exclamou uma garota. Eu não lembrava seu nome. “Aquele era o Jesse.”
“Sim,” eu disse, sorrindo. “Certamente que era.”
“Eu queria me parecer como você,” ela acrescentou com um suspiro.
Seus olhos caíram em mim. Tecnicamente, eu era meia-Moroi, mas minha aparência era
humana. Eu me misturava bem com os humanos durante o nosso tempo fora, tão bem que eu
raramente pensava sobre a minha aparência. Aqui, entre as garotas Moroi magras e sem
peitos, certas características – ou seja, meus seios maiores e meu quadril definido – se
destacavam. Eu sabia que era bonita, mas para garotos Moroi, meu corpo era mais que só
bonito: era sexy de um modo obsceno. Dhampirs eram uma conquista exótica, uma novidade
que todos os caras Moroi queriam “tentar”.
Era irônico que Dhampirs despertasse tamanho fascínio aqui, porque as delgadas garotas
Moroi se pareciam muito as modelos de passarela super-magras tão famosas no mundo
humano. A maioria dos humanos nunca poderá alcançar esse “ideal” de magreza, como as
garotas Moroi nunca poderão se parecer comigo. Todo mundo queria o que não podia ter.
Lissa e eu sentamos juntas nas aulas que dividíamos pela tarde mas não conversamos muito.
Os olhares que ela havia mencionado certamente nos seguiam, mas eu descobri que quanto
mais eu conversava com as pessoas, mais elas se abriam. Lentamente, gradualmente, eles
pareceram se lembrar de quem nós éramos, e a novidade – mas não a intriga – da nossa louca
façanha foi desaparecendo.
Ou talvez eu devesse falar, eles lembravam de quem eu era. Porque eu era a única falando.
Lissa olhava diretamente para frente, escutando mas sem reconhecer ou participar das minhas
tentativas de travar um conversa. Eu podia sentir ansiedade e tristeza transbordando dela.
“Tudo bem,” eu disse a ela quando as aulas finalmente acabaram. Nós estávamos do lado de
fora do colégio, e eu estava totalmente ciente de que fazendo isso, eu já estava quebrando um
dos termos de meu acordo com Kirova. “Nós não vamos ficar aqui,” disse a ela, olhando pelo
campus de forma desconfortável. “Eu vou achar um jeito de nos tirar daqui.”
“Você acha que nós poderíamos fazer isso pela segunda vez?” Lissa perguntou baixinho.
“Absolutamente.” Eu falei com certeza, novamente aliviada de que ela não podia ler meus
sentimentos. Escapar da primeira vez já havia sido bastante difícil. Fazer isso de novo poderia
ser um verdadeiro inferno, não que eu não achasse uma saída.
“Você realmente faria, não é?” Ela sorriu, mais para si mesma do que para mim, como se ela
houvesse pensado em uma coisa engraçada. “Lógico que você faria. É só que, bem...” Ela
suspirou. “Eu não acho que nós deveríamos ir. Talvez – talvez devêssemos ficar.”
Eu pisquei em surpresa. “O quê?” Não foi uma de minhas respostas mais eloqüentes, mas a
melhor que pude fazer. Eu nunca esperaria isso dela.
“Eu te vi, Rose. Eu vi você conversando com os outros aprendizes nas aulas, conversando sobre
o treino. Você sentiu falta disso.”
“Isso não vale a pena,” eu discuti. “Não se... não se você...” Eu não podia terminar, mas ela
estava certa. Ela tinha me lido. Eu tinha sentido falta dos outros aprendizes. Até de alguns
Moroi. Mas havia mais do que só isso. O peso da minha inexperiência, o quanto estava para
atrasada, havia crescido durante todo o dia.
“Talvez seja melhor,” ela reagiu. “Eu não tenho tido tantos... você sabe, coisas acontecendo há
algum tempo. Eu não tenho sentido como se alguém estivesse nos seguindo ou nos
observando.”
Eu não disse nada sobre isto. Antes de deixarmos a Academia, ela sempre sentia como se
alguém a estivesse seguindo, como se ela estivesse sendo perseguida. Eu nunca encontrei
evidências para apoiar isso, mas uma vez eu escutei uma de nossas professores falar e falar
sobre o mesmo tipo de coisa. Sra. Karp. Ela havia sido uma bonita Moroi, com cabelos de um
profundo castanho e com a ossatura da bochecha proeminentes. Eu tinha quase certeza de
que ela era maluca.
“Você nunca sabe quem está observando,” ela costumava dizer, andando ligeiramente pela
sala de aula enquanto fechava todas as cortinas. “Ou quem está te seguindo. Melhor estar
precavido. Melhor sempre estar precavido.” Nós falávamos abafando o riso para nós mesmos
porque era isso que os estudantes fazem perto de professores excêntricos e paranóicos. O
pensamento de Lissa agir como ela me incomodava.
“Qual o problema?” Lissa perguntou, notando que eu estava perdida em meus pensamentos.
“Huh? Nada. Só pensando.” Eu suspirei, tentando balancear meus próprios desejos com o que
era melhor para ela. “Liss, nós podemos ficar, eu acho... mas com algumas condições.”
Isso fez com que ela risse. “Um ultimato Rose, huh?”
“Falo sério.” Palavras que não usava com freqüência. “Eu quero que você fique longe da
realeza. Não como Natalie ou algo parecido mas você sabe, os outros. Os que jogam com o
poder. Camille. Carly. Esse grupo.”
Seu divertimento se transformou em surpresa. “Você fala sério?”
“Claro. Você nunca gostou deles de qualquer forma.”
“Você gostava.”
“Não. Não de verdade. Eu gostava do que eles podiam oferecer. Todas as festas e outras
coisas.”
“E você pode ficar sem isso agora?” Ela pareceu cética.
“Claro. Nós ficamos assim em Portland.”
“Yeah, mas lá era diferente.” Seus olhos fitaram o nada, sem focalizar em algo especifico.
“Aqui... aqui eu tenho de ser parte disso. Não posso evitar.”
“O diabo que você pode. Natalie fica fora de tudo isso.”
“Natalie não vai herdar o título da família,” ela replicou. “Eu já tenho isso. Eu tenho que estar
envolvida, começar a fazer conexões. Andre –“
“Liss,” eu gemi. “Você não é Andre.” Eu não podia acreditar que ela ainda se comparava com o
seu irmão.
“Ele sempre esteve envolvido nessas coisas.”
“Yeah, bem,” eu vociferei de volta, “ele está morto agora.”
Seu rosto endureceu. “Sabe, algumas vezes você não é nem um pouco gentil.”
“Você não me mantêm por perto para ser gentil. Você quer gentileza, há uma dúzia de
carneirinhos aqui que dilacerariam a garganta um dos outros para ficar nos bons grados com a
princesa Dragomir. Você me mantêm por perto para lhe contar a verdade, e aqui está ela:
Andre está morto. Você é a herdeira agora, e você vai ter de lidar com isso do jeito que puder.
Mas, por agora, isso significa ficar longe dos outros da realeza. Nós vamos ser discretas.
Navegar com a correnteza. Se envolver nessas coisas novamente, Liss, e você vai ficar...”
“Maluca?” ela completou quando eu não terminei.
Agora eu olhava para longe. “Eu não quis dizer...”
“Tudo bem” ela disse, depois de um tempo. Ela suspirou e tocou no meu braço. “Está bem.
Nós ficamos e eu vou me manter longe de tudo isso. Nós vamos navegar com a correnteza
conforme você quer. Andar com Natalie, eu acho.”
Para ser completamente honesta, eu não queria nada disso. Eu queria ir para todas as festas
reais e selvagens festividades alcoólicas como fazíamos antes. Nós ficamos de fora dessa vida
por anos até que os pais e irmão de Lissa morreram. Andre deveria ter sido aquele a herdar o
título da família, e ele certamente agia como tal. Lindo e extrovertido, ele encantava qualquer
um que via e tinha sido o líder de todos os grupinhos e clubes reais que existiam no campus.
Depois de sua morte, Lissa sentiu que era seu dever familiar tomar o seu lugar.
Eu pude desfrutar desse mundo com ela. Era fácil para mim, porque não tinha que realmente
lidar com a parte política. Eu era uma bonita dhampir, uma que não ligava se meter em
encrenca e fazer façanhas loucas. Eu me tornei uma novidade; eles gostavam de me por perto
pelo divertimento que eu representava.
Lissa tinha de lidar com outros assuntos. Os Dragomirs eram uma das doze famílias
governantes. Ela tinha uma posição muito poderosa na sociedade Moroi, e os outros jovens da
realeza queriam ter o bom grado dela. Amigos falsos tentaram agradá-la e fazer com que ela
ficasse contra outras pessoas. Os da realeza podiam subornar e te apunhalar pelas costas num
mesmo fôlego – e isso era somente um com os outros. Para os dhampirs e plebeus, eles eram
completamente imprevisíveis.
Essa atitude cruel eventualmente teve resultado em Lissa. Ela tinha uma natureza boa e gentil,
uma que eu amava, e eu odiava vê-la chateada e estressada devido aos joguinhos da realeza.
Ela tinha ficado frágil desde o acidente, e nem todas as festas do mundo valiam ao vê-la
magoada.
“Tudo bem então,” eu disse finalmente. “Vamos ver como as coisas vão. Se alguma coisa der
errado – qualquer coisinha – nós partimos. Sem discussão.”
Ela afirmou com a cabeça.
“Rose?”
Nós duas olhamos para a figura avultante de Dimitri. Eu esperava que ele não tivesse escutado
a parte sobre nós partindo.
“Você está atrasada para o treino,” ele disse tranquilamente. Vendo Lissa, ele deu um educado
aceno. “Princesa.”
Enquanto ele e eu íamos embora, me preocupei com Lissa e me perguntei se ficando aqui seria
a coisa certa a fazer. Eu não senti nada alarmente através da ligação, mas suas emoções davam
pontadas por todo o lugar. Confusão. Nostalgia. Medo. Esperança. De uma forma forte e muito
poderosa, eles me inundaram.
Eu senti o puxão um pouco antes de acontecer. Era exatamente como havia acontecido no
avião: suas emoções haviam ficado tão fortes que eles me “sugaram” para a sua mente antes
que eu pudesse pará-los. Agora eu podia ver e sentir o que ela fazia.
Ela andava lentamente pela área comum, se dirigindo para a capela Ortodoxa Russa que
serviam para a maioria das necessidades religiosas do colégio. Lissa sempre freqüentou à
missa regularmente. Eu não.
Eu tinha um acordo sólido com deus: eu concordava em acreditar nele – somente – se ele me
deixasse dormir aos domingos.
Mas enquanto ela entrava, eu podia sentir que ela não estava lá para rezar. Ela tinha outro
propósito, um que eu desconhecia. Olhando em volta, ela verificou se nem o padre ou algum
adorador estava por perto. O lugar estava vazio.
Se esgueirando por uma porta nos fundos da capela, ela subiu por uma estreita escada que
rangia até o sótão. Aqui estava escuro e empoeirado. A única luz que entrava vinha de uma
grande janela suja que quebrava a fraca luz do amanhecer e transforma em pequenos pontos
multicoloridos pelo chão.
Eu não sabia até o momento que esse lugar era o refúgio de Lissa. Mas agora eu podia sentir,
sentir as memórias de como ela costumava escapar para ficar sozinha aqui e pensar. A
ansiedade nela acalmou-se ficando bem fraca enquanto ela entrava no ambiente familiar. Ela
subiu até o assento perto à janela e inclinou a cabeça para trás apoiando nos lados,
momentaneamente ingressando no silêncio e na luz.
Moroi podiam suportar alguma luz, diferentemente do Strigoi, mas eles tinham que limitar sua
exposição. Sentando aqui, ela quase podia fingir que estava embaixo da luz do sol, protegida
pelo vidro que diluía os raios.
Respire, só respire, ela disse a si mesma. Tudo vai ficar bem. Rose vai tomar conta de tudo.
Ela acreditava nisso apaixonadamente, como sempre, e relaxou mais ainda.
A voz baixa falou da escuridão.
“Você pode ficar com a Academia, mas não com o assento da janela.”
Ela deu um salto, o coração batendo. Eu compartilhei da sua ansiedade, e minha própria
pulsação acelerou. “Quem está aí?”
Um momento depois, uma forma emergiu por detrás da uma pilha de engradados, um pouco
fora de seu campo de visão. A figura deu um passo para frente, e na luz fraca, as expressões
familiares se materializaram. Cabelo preto bagunçado. Pálidos olhos azuis. Um eterno sorriso
afetado sarcástico.
Christian Ozera.
“Não se preocupe,” ele disse. “Eu não vou morder. Bem, pelo menos não no modo que você
tem medo.” Ele deu uma risada de sua própria piada.
Ela não havia achado graça. Ela tinha esquecido completamente sobre Christian. Eu também.
Não importa o que acontece em nosso mundo, algumas verdades básicas sobre os vampiros
permaneciam as mesmas. Moroi eram vivos; Strigoi eram mortos-vivos. Moroi eram mortais;
Strigoi eram imortais. Moroi nasciam; Strigoi eram feitos.
E haviam duas maneiras de se fazer um Strigoi. Strigoi podiam eficazmente transformar
humanos, dhampirs, ou Moroi com uma única mordida. Moroi tentados pela promessa de
imortalidade poderiam se transformar em Strigoi por escolha própria se eles intencionalmente
matassem sobre pessoa enquanto se alimentava. Fazer isso era considerado errado e doentio,
o maior de todos os pecados, tanto para o modo de vida Moroi quanto para a natureza como
um todo. Moroi que escolhiam esse caminho sombrio perdiam sua habilidade de se conectar
com a magia elementar e com outras forças do universo. Isso era o porquê deles não poderem
ficar mais sob o sol.
Isso foi o que aconteceu com os pais de Christian. Eles eram Strigoi.
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